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25 de maio de 2012

Sobre a greve das federais e sobre mentiras e mais mentiras

Da Veja e do Blog do Reinaldo Azevedo:

Apesar do apelo feito nesta quarta-feira pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, a greve dos docentes das instituições federais de ensino superior prossegue nesta quinta-feira. De acordo com o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), o apelo do ministro dá ainda mais visibilidade à paralisação. "A coletiva do ministro mostra que ele reconhece a força da nossa greve”, disse a presidente do Andes-SN, Marina Barbosa. Segundo o mais recente levantamento, 41 universidades federais e três institutos federais de educação aderiram à greve e, portanto, estão sem aula. Além disso, a partir da próxima segunda-feira, as federais de Santa Maria (UFSM) e da Grande Dourados (UFGD) vão aderir à paralisação. "Ao contrário do que disse o ministro, o movimento dos professores não foi precipitado, estamos presentes em todos os espaços de negociação desde 2010, apresentando propostas e cobrando respostas do governo", diz Barbosa.

Também na segunda-feira o Andes realizará uma reunião no Ministério do Planejamento, onde apresentará suas reivindicações. Os professores pedem um plano de reestruturação da carreira, que teria sido prometido pelo governo federal para março deste ano. Entre as reivindicações, está a redução de níveis de remuneração (de 17 para 13), variação de 5% entre os níveis e um salário mínimo para a carreira de 2.329,35 reais referente a 20 horas semanais (atualmente, esse valor é de 1.597,92 reais). Os professores pedem também melhores condições de trabalho e infraestrutura. Na tarde da quarta-feira, Mercadante comparou os problemas de infraestrutura vividos por universidades federais às "dores do parto". Além de minimizar os problemas estruturais, o ministro afirmou que, do ponto de vista das questões salarial e de carreira, não há razões para a paralisação dos docentes. "Não me lembro de nenhuma greve semelhante, sem razão de ser", disse.

A argumentação do ministro toma como base um acordo firmado entre o MEC e as entidades de professores universitários no final do ano passado. O documento previa reajuste de 4% nos salários a partir de março de 2012, incorporação de gratificações aos salários e a apresentação, até março passado, de um novo plano de carreira que passaria a valer em 2013. Estava acordada ainda a aprovação de um projeto de lei que autoriza o Ministério da Educação a contratar docentes para dar suporte à expansão da rede de ensino. A tramitação do projeto de lei está atrasada no Congresso. Ele foi aprovado na Câmara, mas ainda precisa ser votado no Senado. Mercadante disse que vem pedindo celeridade aos parlamentares. 

O reajuste salarial também está atrasado devido aos trâmites no Congresso. Foi preciso que o governo editasse uma medida provisória nesta semana para garantir o aumento, que sairá em junho, retroativo a março. Sobre a formulação do plano de carreira, o ministro explicou que a morte de um funcionário do Ministério do Planejamento que liderava as negociações, o secretário de recursos humanos Duvanier Paiva Ferreira, atrasou os procedimentos. Duvanier morreu em janeiro após sofrer um infarto. "O atraso não traz nenhum prejuízo material para os docentes porque estamos tratando de uma nova carreira para 2013", disse.

No discurso dos títulos a baciadas, Lula afirmou que chegou ao governo com 6 milhões de universitários e que, hoje, eles serim 12 milhões. Mentira! Segundo o Censo Universitário, no fim de 2010, assinado por Haddad, havia 6,37 milhões de estudantes no terceiro grau — 14,7% estão na modalidade “ensino à distância”... Disse ter criado novas universidades federais. Mentira também! Deve chegar, no máximo, à metade. Algumas “universidades novas” são campi avançados ou divisão de instituições anteriores. Em 2010, as universidades públicas brasileiras formaram 24 mil estudantes A MENOS do que em… 2004! As universidades federais brasileiras mais incharam do que cresceram. Lula e Haddad foram criando alguns puxadinhos e puxadões Brasil afora, sem oferecer as condições mínimas necessárias para um ensino de qualidade. As mentiras têm sido reproduzidas por aí, com base em releases distribuídos por assessorias de comunicação. É chegada a hora de visitar os campi dessas novas “universidades federais” criadas por Lula e Haddad e saber como funcionam. Vamos ver como estão seus laboratórios, bibliotecas e salas de aula, conhecendo também os docentes, seu regime de trabalho e sua qualificação intelectual e técnica.
Já conhecemos os milagres de Lula. Agora só falta conhecermos a verdade.

4 de junho de 2011

Educação e informação

Do Estadão:

Proposta para a educação

Por Fernando Reinach (*)

Você lembra o número do telefone de seu dentista? Onde estão suas músicas preferidas? E a história de seu país? Essas informações estão fora de seu corpo, talvez no seu telefone celular, nos CDs e nos livros que enchem as estantes. Estamos tão acostumados a guardar, buscar e utilizar informações armazenadas em instrumentos de memória extracorpórea que é quase impossível imaginar como seria nossa existência sem essas tecnologias. Mas a realidade é que, durante a maior parte da existência do Homo sapiens, o único instrumento de que dispúnhamos para armazenar informação era nossa memória e a memória de nossos conhecidos.

O processo de acúmulo de informações surgiu quando nossos ancestrais começaram a se comunicar, talvez 1 milhão de anos atrás. Antes, a informação acumulada por uma pessoa desaparecia com sua morte. O que para nós é difícil de compreender é que durante 995 mil desses últimos 1 milhão de anos toda a informação acumulada por nossa espécie estava armazenada exclusivamente em nossa própria memória. Não havia instrumentos de memória extracorpórea, a escrita não tinha sido inventada. Os desenhos e outras formas de arte, apesar de úteis, são incapazes de estocar muita informação. Faz menos de 5 mil anos que aprendemos a escrever e aos poucos pudemos retirar de nossa memória parte da responsabilidade de estocar a informação coletada pela humanidade. Surgiram os livros, depois os discos e os computadores.

É quase impossível imaginar como foi nossa relação com a memória cerebral durante centenas de milhares de anos. Imagine um mundo onde qualquer informação esquecida não pudesse ser recuperada. Foi neste ambiente que nosso cérebro evoluiu e foi moldado pelo processo de seleção natural. A educação de um indivíduo obrigatoriamente passava pela tarefa de memorizar as informações acumuladas por seus antepassados. As histórias, as músicas, os alimentos, como caçar e como tratar doenças. Cada indivíduo, antes de se considerar educado, deveria memorizar todas estas informações. Educar era antes de tudo lembrar.

Com o desenvolvimento da escrita, as tradições orais foram colocadas no papel e cuidadosamente replicadas. Mas só muito recentemente a prensa de Gutenberg se espalhou pela Europa e os livros puderam chegar a grande parte da população. Foi nesta época de transição, entre o uso exclusivo da memória e a introdução dos instrumentos de memória extracorpóreos, que surgiram as escolas. A disponibilidade da informação nesses instrumentos ainda era limitada e a educação tinha como objetivo "copiar" no cérebro de cada indivíduo grande parte da informação acumulada pela humanidade. Mas, enquanto esse sistema de ensino se espalhava e as crianças estavam memorizando acidentes geográficos, por exemplo, o aprimoramento dos mecanismos de memória extracorpórea permitiu que a quantidade de informação acumulada crescesse exponencialmente.

Nosso sistema de educação estava condenado ao fracasso antes de poder se espalhar. Hoje é impossível ensinar ou aprender tudo o que a humanidade sabe. Os anos de estudo se prolongam e a quantidade de informação a ser ensinada se multiplica. A especialização, grande esperança do século 20, inibe a criatividade, condena as pessoas a viverem em um microcosmo e acirra conflitos entre habitantes de cada microcosmo. São agricultores que não entendem o ecossistema, ecologistas que não entendem a evolução. E, pior, pessoas que não sabem aprender fora da escola.

Talvez seja a hora de pensar numa mudança radical no processo de educação. Ele não deve ter como objetivo copiar a informação para nosso cérebro. Da mesma maneira que deixamos de decorar o número do telefone do dentista, o objetivo da educação deveria ser capacitar as pessoas a explorar, capturar, selecionar, julgar e utilizar as informações acumuladas nos mecanismos de memória extracorpórea. Deveríamos também ensinar as pessoas a organizar, sistematizar e depositar informações nesses mecanismos extracorpóreos, tanto individualmente quanto coletivamente. As informações utilizadas durante o ensino seriam somente exemplos que permitiriam aos alunos aprender a navegar pelo mar de informações. Aos 21 anos deixaríamos para sempre o ambiente escolar, cada jovem diferente de todos os outros, mas todos capazes de estudar e aprender durante o resto da vida.

(*)  Biólogo

2 de abril de 2011

Mitos sobre a educação

Da Nova Escola:


15 mitos da Educação

Nesta reportagem, convidamos você a refletir sobre 15 ideias presentes no dia a dia da sua profissão. Vale a pena analisar como essas questões interferem em sua prática. Seus alunos vão agradecer

1) Para ser um bom professor é preciso ter dom e vocação

Por que é um mito A docência não é uma capacidade inata, e sim uma carreira que, como outras, pressupõe esforço pessoal e formação que possibilitem o domínio de aspectos teóricos e práticos ligados à aprendizagem.

Por que derrubá-lo Um dos grandes desafios do país é a revalorização da carreira docente - com bons salários e condições de trabalho dignas para os educadores. Para que isso ocorra, é necessário que todos tenham acesso à formação inicial e continuada de qualidade. Só com estudos constantes, planejamento e dedicação, é possível ser um bom professor, ou seja, ensinar todos os estudantes.


"Não é admissível que alguém lecione apenas porque gosta de crianças ou acredita que leva jeito. A docência exige conhecimentos científicos."


Carlos Roberto Jamil Cury, professor titular aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Leia sobre os outros mitos:

19 de setembro de 2010

Manobrar o grande transatlântico afetivo das crianças, eis o desafio para pais e educadores

Do Educar para crescer:

Educar para as emoções


Crie seu filho para que ele saiba se relacionar com as pessoas e o mundo. O sucesso profissional será uma consequência


“Meu filho vai ter nome de santo / Quero o nome mais bonito”. Os versos da música-ícone “Pais e Filhos”, da banda Legião Urbana, simbolizam a vontade que quase todo pai tem de fazer o melhor para o seu herdeiro. Antes mesmo de o bebê nascer, pai e mãe embarcam num planejamento detalhado, que vai do nome de batismo à escolha da escola. Não raro, a criança mal saiu do berço e já está disputando vaga num dos melhores colégios de sua cidade, fenômeno percebido principalmente entre as famílias de classe média alta. “Os filhos hoje são verdadeiros tesouros de seus pais. Dizemos que são superinvestidos”, sinaliza o médico Luiz Carlos Prado, psicoterapeuta familiar de Porto Alegre, RS. Esse superinvestimento se dá em diversos sentidos.


Não apenas as crianças são muito amadas, vigiadas e protegidas, como frequentam escolas concorridas e têm acesso a bens materiais caríssimos, como videogames e computadores de última geração. Expectativas demasiadas e excesso de proteção e de mimos, porém, conduzem muitas vezes a um quadro indesejável: a criança pode se tornar um jovem cheio de conhecimentos, entretanto pouco capaz de se relacionar em grupo e, pior, insatisfeito e infeliz. Acostumado a ter tudo à mão, ele reage mal diante das dificuldades intrínsecas à vida e à convivência em sociedade. Consequentemente, não desenvolve a segurança e o jogo de cintura necessários para a satisfação pessoal e o sucesso profissional.


A ironia é que são essas características prejudicadas pelo excesso de investimento – habilidade para conviver, empatia, flexibilidade – que o mundo profissional mais tem procurado. Em um estudo recente, a IMC Consultoria Empresarial, do Rio de Janeiro, divulgou que 75% das empresas brasileiras consideram a chamada “inteligência emocional” mais importante do que os conhecimentos práticos de seus funcionários. Não adianta, portanto, investir na hiperqualificação de seu filho sem, ao mesmo tempo, lhe garantir uma formação emocional tão sólida quanto. Pensando nisso, o Educar para Crescer conversou com especialistas e traçou algumas orientações fundamentais para que pais não percam de vista as emoções de seus filhos. Confira!



Para ler, clique nos itens abaixo:



Quem não gostaria de ter sido mais popular, o primeiro a ser escolhido para o time de futebol, a menina mais bonita da escola? Todos gostaríamos de ter sofrido menos e de ter sido mais admirados. Mas lembremos: cada um vive uma história única. Portanto, não adianta canalizar para o seu filho a expectativa de que ele será tudo que você gostaria de ter sido. Ou terá tudo o que você gostaria de ter tido. Além da impossibilidade universal de ser 100% feliz e amado todo o tempo, leve em conta também que seu filho é outra pessoa, provavelmente com aptidões e vontades diferentes das suas.


"Muitas vezes, os filhos parecem ser a extensão narcísica dos pais", aponta a psicóloga e psicanalista Elizabeth Brandão, de São Paulo, professora do curso de psicologia da PUC-SP. Isso quer dizer que a criança não irá complementar a sua vida, muito menos compensá-la. Ela terá uma vida dela, com suas próprias dificuldades e conquistas.


Pressionada para que seja uma versão melhorada de você, a criança irá falhar e, pior, perceberá esse fracasso como uma espécie de decepção para os pais. Por isso, desde cedo, procure dar espaço para a diferença de gostos e de objetivos em sua família. Nunca perca de vista que criar um filho é acompanhar o desenvolvimento da vida de outro ser humano e auxiliá-lo nessa trajetória, e não moldar alguém ao seu gosto.



O videogame mais moderno. Festinhas de aniversário em bufês caros. Férias em resorts. Será mesmo que as crianças precisam de toda essa sofisticação? A resposta é simples: não. É a nossa sociedade de consumo exacerbado que vê nas crianças um público bastante influenciável, já que os pais costumam se dobrar ao menor de seus desejos. E por que os pais atendem aos apelos? Porque eles mesmos estão inseridos nesse contexto capitalista e também não questionam a serventia do que é propagandeado. "Os pais não gostam de se privar e, por isso, não querem privar os filhos", resume o médico e psicoterapeuta Luiz Carlos Prado, autor dos livros "Entre a Realidade e os Sonhos" e "Amor & Violência nos Casais e nas Famílias" (ambos da editora Sinopse). A psicanalista Elizabeth Brandão reforça, questionando: "Que valor teria uma roupa de grife para uma criança, por exemplo? É apenas o entorno que a convence disso".


Além de supervalorizar aquilo que o dinheiro pode comprar, o problema dessa indulgência toda é que a criança passa a esperar muito de tudo e deixa de reconhecer oportunidades - e alegrias - na simplicidade. E estas podem ser muitas. Uma bola para jogar futebol ou um giz para desenhar uma amarelinha fazem facilmente a alegria da garotada. Em dia de chuva, que tal desenhar, aprender a fazer um bolo ou apenas virar cambalhotas no chão da sala? Todas essas são atividades saudáveis, que ajudam a desenvolver a sociabilidade e a autoestima. "Entre o shopping e a pracinha, fique sem dúvida com a pracinha. Entre um brinquedo cheio de luzes e sons e um de sucata, fique com o segundo", sugere Elizabeth, lembrando que é na experimentação que a criança desenvolve a criatividade.


O videogame e os jogos de computador não devem ser proibidos, claro. Mas não é recomendável basear toda a diversão das crianças em eletrônicos e parquinhos modernosos, sob o risco de frear a sua capacidade criativa e torná-las consumistas e insaciáveis - desesperadas pelo último modelo de qualquer coisa. A liberdade para descobrir e traçar as próprias regras é essencial na construção do jogo de cintura que será tão apreciado mais tarde, no mercado de trabalho. E, claro, tem papel fundamental na própria felicidade.



Pare um momento para pensar: você realmente escuta o que seu filho tem a dizer e, inclusive, aprende com ele? E, mais: já mudou de ideia em relação a um assunto após ouvir um argumento dele? Se sua resposta sincera for não, talvez esteja na hora de realmente abrir o coração e compartilhar. Para o psicanalista Ignacio Gerber, de São Paulo, o diálogo sincero é uma das bases para uma boa relação entre pais e filhos."O ideal seria uma conversa sem pressupostos, na qual realmente se realize uma troca", sugere o psicanalista, enfatizando, ainda, o poder da verdade nas relações: "Como dizia Bion e outros pensadores, a verdade faz bem para a saúde; já a mentira, intoxica".


Isso quer dizer que pais, em vez de se colocarem num pedestal, como se tudo já soubessem e nada temessem, talvez possam se humanizar mais e, na troca de experiências, desenvolver um vínculo real com seus filhos. Por exemplo, por que esconder da criança que houve um contratempo em seu dia? Se for algo que possa ser compreendido por ela, vale a pena dividir. Assim ela saberá que tropeços acontecem na vida de todos, até daqueles que ela mais admira, e não apenas na dela, e se sentirá, dessa forma, mais segura.


Quando sente que é ouvida pelos pais, a criança também se valoriza mais e vai firmando a sua própria voz. Um estudo realizado na Suíça em 2007/2008 mostrou, por exemplo, que crianças ouvidas em casa tendem a tirar notas mais altas na escola.



Especialistas são unânimes ao afirmar que nada é mais valioso numa educação do que o exemplo dado pelos pais. Como nem sempre pais avaliam suas próprias atitudes antes de orientar os filhos, cria-se uma contradição pouco construtiva nessa relação. O psicanalista Ignacio Gerber dá um exemplo: "Dizemos que pai nenhum deve entrar numa loja de brinquedos e deixar os filhos comprarem o que quiserem. Mas e se esses pais forem indulgentes consigo mesmos, enchendo a garagem de carros e a casa de acessórios? Como impor ao filho um padrão diferente?".


Ou seja: quando os próprios pais se presenteiam constantemente com "brinquedos", fica difícil mesmo convencer os filhos a não fazerem o mesmo. E, caso os pais não percebam essa contradição, não há dúvida de que os filhos perceberão e se ressentirão disso.


A máxima de Gandhi "seja para o mundo o que gostaria que o mundo fosse" pode ser muito bem aplicada na criação dos filhos. Quer crianças menos consumistas? Consuma menos e expresse que existe satisfação e felicidade em outras conquistas, que não envolvam dinheiro e lojas. Quer que seu filho brinque mais lá fora? Não tenha receio de arrancar os sapatos e pisar na grama molhada.


E nem é preciso dizer que filhos de leitores assíduos tendem a ler mais. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo governo americano mostrou que 74% dos jovens que estudam em boas universidades liam com seus pais quando eram pequenos.



E entenda que a brincadeira não pode se restringir a desvendar os botões de uma boneca falante ou de um carrinho supersônico. A melhor brincadeira é aquela que é espontânea, criada pelas próprias crianças, sozinhas ou em grupo. É experimentando que a criança desenvolve segurança, tornando-se, mais tarde, um adulto mais centrado e confiante em seu próprio taco.


"A criança precisa de um momento em que não esteja sendo julgada ou cobrada, em que possa simplesmente fantasiar e fazer o que quer. Assim ela saberá que não depende do olhar do outro para ser alguém", explica a psicanalista Elizabeth Brandão, lembrando que não é recomendável preencher todos os dias da criança com cursos extracurriculares, e nem mesmo com atividades recreativas "dirigidas".


Durval Checchinato, psicanalista de Campinas, SP, e autor do livro “Criança: Sintoma dos Pais”, também enfatiza que a falta de ócio pode limitar a plenitude da infância. "Deve haver um limite para o engajamento dos pais. Em nossa sociedade, pais tentam ocupar os filhos com múltiplas atividades (esportes, línguas), que os deixa sem fôlego e tempo para viver a infância ou mesmo a adolescência", observa. "Essa ganância atropela a criança, que fica sem tempo para curtir sua infância. E, queimando essa etapa da vida, ficará um vazio irrecuperável na vida adulta".


Hoje, também costumamos achar que a criança deve ser estimulada em todos os momentos, até quando está brincando. Tudo tem de ser educativo, instrutivo, informativo. Mas atente para o exagero. "É um equívoco ‘estimular ao máximo’ a criança. Ela acaba se tornando irriquieta, hipermotiva, como se não vivesse mais sem estímulo", alerta Checchinato.


Outro ponto levantado pelo psicanalista é o excesso de tratamentos a que as crianças têm sido submetidas - frequentemente, são atendidas por psicopedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos e psiquiatras. "Os pais têm de saber que eles mesmos podem resolver a maior parte dos problemas de seus filhos. Autoavaliando-se, eles podem perceber a origem das questões e trabalhá-las em família", acredita.



Este é um jargão repetido entre especialistas. E o que significa dar limite? Entre outras coisas, definir horários na rotina da criança, repreendê-la se cometer atos agressivos e não lhe dar tudo que quer. Em síntese: saber dizer não quando julgar necessário. E por que se trata de um ato de amor? Porque só quem recebeu limites consegue ser feliz.


Se comêssemos brigadeiro todos os dias, ele teria o mesmo gosto? Provavelmente não. A partir desse raciocínio básico, avalie se tem deixado espaço para seu filho desejar coisas que não tem - não apenas coisas materiais, mas também aquilo que ele conquistará com o tempo, construindo sua identidade no mundo: mais liberdade para ir e vir e maior poder de decisão.


O sentimento de falta tem a grande vantagem de nos empurrar em direção a conquistas, como ressalta o psicoterapeuta Luiz Carlos Prado: "A falta nos movimenta. Vamos atrás daquilo que não temos. Não é à toa ouvirmos falar de pessoas que partiram do nada e alcançaram muita coisa". Na mesma linha, o psicanalista Durval Checchinato reforça: "É bom lembrar que não há desejo sem falta nem saudade. Quanto mais propiciarmos que nossos filhos encarem essa realidade estrutural, mais os ajudaremos e os prepararemos para a vida". Assim, não projete em seu filho a possibilidade de ter tudo, e nem procure dar a ele tudo que puder como forma de compensar outras faltas que você não possa controlar. Curvando-se a todas as suas vontades e temendo que ele se revolte diante do menor dos nãos, você o prejudica muito mais do que se deixá-lo chateado vez ou outra ao negar um pedido ou repreendê-lo devido a um comportamento inadequado.


"Nada mais prejudica um filho ou o infantiliza do que o superproteger, mimá-lo ou poupá-lo do real da vida", explica Checchinato. "A criança precisa desde cedo ser ensinada a enfrentar esse real e ser conscientizada de que frustrações fazem parte do viver. Apoiada e incentivada pelos pais, ela se habitua a superar obstáculos e a vencer etapas. Autoconfiança é uma virtude que ela conquistará passo a passo, pois não vem de fora".



"Respeitar os mais velhos" parece coisa de outro tempo? Pois justamente por parecer uma coisa antiga que se tornou comum ouvir a reclamação "como as crianças andam mal-educadas". Respeitar os mais velhos não significa que a criança deva obedecer cegamente a pais e professores, muito menos sentir-se ameaçada na presença de um adulto.


Mas, sim, ter consciência de como essas pessoas são importantes em sua vida e, por isso, valorizá-las. É fundamental, por exemplo, que a criança perceba que aprende com seu professor e se sinta grata por isso.


O respeito ao próximo também se aplica, é claro, a coleguinhas de sua mesma idade e de outras pessoas de sua convivência, inclusive aquelas que trabalham em sua casa, como a babá e a empregada.


Para os pais, a missão é deixar claro para a criança, de maneira natural, que ela não conseguiria viver sozinha. "Desde sempre os pais podem transmitir à criança que nada somos sem o outro. Em tudo dependemos do outro: na concepção, na gestação, no nascimento, nos cuidados com a criança, no amor, no carinho, na alimentação, na higiene...", sugere o psicanalista Durval Checchinato.


Outra dica para os pais é chamar a atenção da criança, no dia a dia, para os sentimentos alheios, ajudando-a, assim, a desenvolver a empatia e a compaixão. Um estudo recente do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos Estados Unidos, mostrou que crianças se tornam mais empáticas quando, após agredirem ou ofenderem um coleguinha, são confrontadas com observações como "Olha só, ele está chorando porque doeu" ou "Ele ficou triste, por que você não pede desculpas?".


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Ranking das melhores universidades do mundo contempla 72 norte-americanas e nenhuma das dezenas criadas pelos 16 anos de comunismo no poder federal

"Nenhuma universidade do Brasil ficou entre as 200 melhores do mundo, segundo o Ranking Mundial de Universidades (2010-2011), elaborado pela publicação britânica educacional Times Higher Education divulgado nesta quinta-feira (16). Com 72 instituições entre as melhores, os Estados Unidos dominam a lista. Os cinco primeiros lugares são do país: 1ª Harvard, 2ª California Institute of Technology, 3ª Massachusetts Institute of Technology (MIT), 4ª Stanford e 5ª Princeton. Em seguida está o Reino Unido, com 29 universidades no ranking..." Leia mais

Desigualdade à vista e a prazo no Brasil do bolsa família

"Uma Análise publicada pelo economista da FGV Marcelo Côrtes Neri, mostra que desde 1996 há redução do índice de Gini - indicador, que mede a concentração de renda (quanto mais perto de 1, maior a desigualdade) - caiu de 0,6068, naquele ano, para 0,5448, em 2009. A baixa escolaridade da população brasileira mantém o país entre as dez nações mais desiguais do mundo. - Ainda estamos no top 10 da desigualdade mundial - afirma o economista durante entrevista à Agência Brasil. Apesar da queda, o índice brasileiro é superior ao de países como os Estados Unidos (em torno de 0,400) e da Índia (0,300); e está próximo ao de nações mais pobres da América Latina e do Caribe e da África Subsaariana..." Leia mais

11 de julho de 2010

A receita para donos de escolas terem bons professores

Do Jornal Zero Hora:

Entrevista: "Professores não devem ser pagos só pelo desempenho"

Christopher Day, professor da Universidade de Nottingham

Especialista em educação, o professor Christopher Day, da Universidade de Nottingham, na Grã-Bretanha, avalia a meritocracia nas escolas. Leia trechos da entrevista concedida por e-mail a Zero Hora:
Zero Hora – Quais são os melhores caminhos para ter bom professores nas escolas? Como fazer para aperfeiçoá-los?
Christopher Day – Não há uma solução-atalho. Há um número de condições que precisam ser ordenadas. Primeiro, a atividade de ensino por si precisa ser atraente em termos de condições (incluindo salário, mas mais importante, condições do local de trabalho para o ensino e o aprendizado). Segundo, ela precisa ser respeitada por público e mídia. Terceiro, os treinamentos para antes e durante o ato de lecionar precisam ser de alta qualidade. E quarto, as qualificações para lecionar precisam ser reforçadas.
ZH – O senhor acredita que professores devem ser avaliados e pagos de acordo com o desempenho de seus alunos?
Day – Professores não devem ser avaliados e pagos apenas de acordo com o desempenho de seus alunos, pois é difícil indicar um relacionamento direto de “causa e efeito” entre o ensino e a realização. É claro, estudantes devem progredir guiados por um professor, então o progresso e o desempenho devem ser monitorados. Entretanto, o significado de “desempenho” é interpretado de forma diferente por pessoas diferentes. Por exemplo, enquanto é relativamente fácil examinar o progresso em matemática, é mais difícil examiná-lo no desenvolvimento de habilidades de raciocínio ou em criatividade. Finalmente, em razão de dificuldades externas em famílias e na sociedade, pode ser mais difícil de engajar e motivar alguns estudantes do que outros. Os professores, é claro, devem fazer diferença no aprendizado dos alunos.
ZH – A avaliação e a remuneração de professores de acordo com esse modelo são comuns na Grã-Bretanha?
Day – São avaliados a cada ano. Chamamos isto de “administração de desempenho”. É baseado em documentação e em observações em sala de aula. A avaliação é baseada na descrição do trabalho do professor, com foco em três tópicos: progresso e realização do estudante, padrões nacionais de ensino e planejamento do desenvolvimento do professor no contexto do plano de melhorias da escola. Isso está associado com progressão na carreira e com aumentos salariais.

Um ano e meio de resultados nas mãos de um bom professor

Do Jornal Zero Hora:

Meritocracia em debate

Deve-se premiar o professor que ensina melhor e punir o que não consegue?

Avaliações internacionais apontam que se aprende pouco nas escolas do país. A insatisfação motiva uma discussão: deve-se premiar o professor que ensina melhor e punir o que não consegue? Uma realidade de implicações profundas está emergindo de estudos educacionais recentes: a de que o fator mais decisivo para definir o quanto uma criança aprende na escola é a qualidade do seu professor. O economista americano Eric Hanushek, da Universidade de Stanford, pesquisador eminente na área, descobriu que o aluno de um professor excelente em uma escola ruim aprende mais do que o de um professor ruim em uma escola excelente.
A Zero Hora, revelou outro achado de impacto.
– Um bom professor consegue o equivalente a um ano e meio de aprendizado, enquanto o mau professor consegue só meio ano. A única maneira de elevar o aprendizado é ter certeza de que há um professor bom em cada sala de aula – disse o pesquisador. Avaliações internacionais apontam que se aprende pouco nas escolas brasileiras. O desejo de reverter esse quadro tem levado autoridades e educadores e líderes empresariais a mexer em um vespeiro: há no Brasil um movimento pressionando pela aplicação de critérios meritocráticos. O princípio é dar aumento ao professor que faz os alunos aprenderem e punir o que não consegue. Trata-se do eco de uma discussão que vem balançando os Estados Unidos. Entusiasta da ideia de pagar conforme o desempenho, o presidente Barack Obama criou programas que despejam bilhões em recursos federais nos Estados e distritos que adotarem a prática. No Brasil, há partidários ardorosos e adversários ferrenhos. Entre os primeiros, está o economista Cláudio de Moura Castro, especialista em educação.

– É a lógica do mercado e da produtividade. Manter o professor ruim é o mesmo que uma fábrica de automóvel não demitir o funcionário que deixa passar carros com defeito na barra de direção – compara. A oposição mais radical vem dos sindicatos de professores. No ano passado, a proposta do Piratini de oferecer um 14° salário a quem atingisse metas foi torpedeada pelo Cpers. Nesta semana, o Ministério da Educação anunciou um exame para seleção de docentes, e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) foi para o ataque, vendo por trás da proposta uma maquinação para implantar a meritocracia. – Se a meta é fazer 500 unidades e o funcionário faz 300, pode demitir. Mas transferir isso para a escola não tem cabimento – diz o presidente da CNTE, Roberto de Leão.
Premiar não pode ser medida isolada


O grande risco é desandar para o simplismo – ver a meritocracia ou como poção mágica, ou como veneno mortal. Especialistas lembram que as experiências ainda são raras, e os resultados, desconhecidos. Patrícia Guedes, do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, passou uma temporada analisando a reforma de ensino de Nova York, apontada como referência. Produziu um livro simpático ao modelo, mas é cuidadosa:
– Não pode ser algo feito de forma isolada. Precisa-se garantir que o professor tenha apoio adequado para conseguir resultados.

Pagar por desempenho não pode ser uma política isolada porque não resolve o principal: o nível de quem ingressa no magistério não é o ideal no Brasil. Como a profissão não é atrativa, os mais talentosos, em geral, buscam outras carreiras. Vão para as faculdades que formam professores alunos que, na média, não eram dos mais brilhantes. Para complicar, esses cursos são ruins. Um estudo da consultoria McKinsey analisou os países com melhor educação. A base era a Finlândia, com o ensino mais bem avaliado. Concluiu que os campeões de qualidade não premiam o mérito. O foco está no recrutamento. Para atrair os melhores, os salários são altos, e a carreira, promissora. As faculdades de Educação são das mais concorridas.

4 de julho de 2010

Grandes negócios, pequenos empreendedores

O contato com a vida financeira deve começar na infância

O aprendizado nos primeiros anos de vida evita dívidas impagáveis na fase adulta. Experiências educacionais em São Paulo e Brasília tentam passar esse conhecimento

Por Vera Batista


Os segredos da boa administração do dinheiro precisam ser descobertos na infância. É na primeira fase da vida que todas as pessoas, independentemente da classe social, aprendem os principais conceitos sobre o valor da moeda, além do bem e do mal que o seu uso pode acarretar. Trata-se de um aprendizado fundamental que, caso não seja transferido pelos pais, deve ser buscado na escola, opção escassa no país. Em São Paulo, uma experiência pioneira vem mostrando resultados. Em quatro anos, a professora Silvia Alembert, representante da franquia norte-americana de educação financeira The Money Camp, ensinou 1,5 mil crianças em situação de vulnerabilidade a lidar com recursos financeiros.

O entusiasmo dos meninos e meninas participantes do curso foi tamanho que parte deles, se pudesse, escolheria as "aulas de dinheiro" às da escola convencional. São momentos lúdicos, que envolvem brincadeiras e simulações de aplicações financeiras. As crianças lidam com uma moeda fictícia, a "moola" (gíria dos Estados Unidos para grana). As aulas são lúdicas, envolvem brincadeiras e simulações de aplicações financeiras. Os pequenos, ao fim do período, são premiados de acordo com um sistema de pontuação. O primeiro colocado recebe uma conta de investimentos em fundos ou previdência no valor de R$ 100. O segundo ganha uma caderneta de poupança de R$ 50. E o terceiro, um livro sobre o tema. Todos os demais ganham medalhas pela participação.

Sílvia explica que usa um método que aflora as potencialidades humanas para alcançar objetivos. "O curso ensina a consumir com inteligência, sem exageros, a programar despesas e a investir adequadamente. A maioria dos brasileiros não tem hábito de planejar, identificar o que é necessidade e se preparar para um possível período de crise financeira", adverte. Ela constata que a linguagem do dinheiro é a mesma ao redor do mundo, independentemente da situação social das pessoas. Segundo ela, o problema reside na inversão de valores, no consumismo sem limites e na cultura de que o dinheiro é sujo, não traz felicidade - valores geralmente disseminados pelos pais que viveram situações financeiras ruins.

Culpa

Para os especialistas no assunto, muitas das atitudes irresponsáveis dos filhos têm como origem o sentimento de culpa dos pais, que, com frequência, querem substituir ausências por compensações financeiras de toda ordem. Esse doloroso processo psicológico está descrito com detalhes no livro Você sabe lidar com seu dinheiro? Da infância à velhice, dos jornalistas Marília Cardoso e Luciano Gissi Fonseca. É na inversão dessa lógica, incutida na mente das crianças, que se concentra o programa The Money Camp. Nos cursos realizados, os pais também são "trabalhados" para se educar. O objetivo é que eles passem também a contribuir para a mudança de comportamento dos filhos.

Sílvia explica que o programa é uma filosofia de vida, um resgate da autoestima. Os pequenos são estimulados a viver de acordo com seu orçamento. "E não para se mostrarem para os outros", diz. O objetivo é ensiná-los a usar o dinheiro com ética e respeito aos demais. O conceito mais usado ao longo do curso é o de que é possível concretizar os desejos. Para isso, não existe mágica. Só depende de planejamento. "O dinheiro não dá em árvores, nem cai do céu", prega. Para ampliar o programa, ela firmou parceria com o Instituto de Tecnologia Social Aplicada (Itesa) e mais 250 crianças e adolescentes de baixa renda serão atendidas até o fim do ano.

Empreendedores

A diretora da franquia norte-americana luta para ver esse projeto disseminado por toda a rede de ensino estadual paulista, mas o sonho esbarrou na burocracia governamental. Em Brasília, projetos semelhantes começam a ganhar forma. Desde 2009, a pedagoga Rosa Leite, do Colégio Sagrado Coração de Maria, trabalha com 18 turmas do segundo ao sétimo ano do ensino fundamental da escola, uma instituição particular para alunos de classe média alta. O assunto faz parte da disciplina empreendedorismo, com aulas semanais de 50 minutos, palestras com economistas, gerentes de banco e analistas de mercado financeiro. As crianças confeccionaram um cofrinho com material reciclado e estabeleceram uma meta para o fim do ano.

"Dependendo da relação familiar, com ou sem mesada, as crianças guardaram de R$ 30 a R$ 200. Elas se esforçaram muito e nos ajudaram a criar consciência financeira nos pais. Umas pediam a eles para fazer massagem, outras para arrumar o escritório - tudo em troca de pagamento", lembra Rosa. Um dos garotos sonhava em comprar um automóvel. Juntou R$ 150 e colocou na poupança para, aos 18 anos, comprar o próprio carro. "Ele tem 9 anos e está na 3ª série", relata a professora. Outros mais maduros, da 7ª série, para conseguir os primeiros recursos próprios, venderam produtos da Avon e da Natura e fabricaram bijuterias na oficina de artesanato para comercialização na feirinha local.

Por trás dessas iniciativas, está o propósito de deixar claras para as crianças, e os seus pais, as consequências do bom e do mau uso do dinheiro. Com conceitos óbvios, como o de gastar apenas o que ganham, os instrutores buscam evitar situações limites, como as que exigem outro tipo de profissional, os chamados "médicos financeiros", convocados sempre que o estrago no orçamento já não tem mais conserto. Melhor que ensinar os perdulários a se salvarem, Silvia e Rosa garantem que negócio mais lucrativo é apostar no aprendizado prévio. Nas experiências tocadas por elas, os garotos saberão, por exemplo, a diferença entre comprometer parte da renda em longos financiamentos e o investimento do mesmo valor, pelo mesmo período, em aplicações financeiras com renda pré-fixada, por exemplo.

Como gastar

Incomodada com um dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo o qual 85% das famílias brasileiras vivem endividadas, Marília Cardoso pesquisou e escreveu um livro-reportagem dirigido a jovens, adultos, casais e aposentados. De certa forma, ela também fala às crianças. Para os pequenos, as dicas estão relacionadas ao uso da mesada dada pelos pais.

Fonte: Correio Braziliense

28 de março de 2010

Filosofia e sociologia propagam marxismo tupiniquim em nossa juventude desprotegida

Ideologia na cartilha

Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro, as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...

Marcelo Bortoloti
À caça de bons mestres
O colégio paulistano São Domingos e o estadual Pedro Álvares Cabral (no detalhe), no Rio: um desafio em comum

Os 8 milhões de estudantes brasileiros matriculados no ensino médio passaram a receber neste ano aulas de sociologia e filosofia - disciplinas que, por lei, se tornaram obrigatórias em escolas públicas e particulares. Com base nas diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação, cada estado fez o seu currículo, no qual a maioria dos colégios privados também se espelha em algum grau. A leitura atenta desse material traz à luz um festival de conceitos simplificados e de velhos chavões de esquerda que, os especialistas concordam, estão longe de se prestar ao essencial numa sala de aula: expandir o horizonte dos alunos. Não faltam exemplos de obscurantismo. Para se ter uma ideia, no Acre uma das metas do currículo de sociologia é ensinar os estudantes a produzir regimentos internos para sindicatos de trabalhadores - verdadeiro absurdo. Um dos explícitos objetivos das aulas em Goiás, por sua vez, é incrustar no aluno a ideia de que "a constante diminuição de cargos em empresas do mundo capitalista é um fator estrutural do sistema econômico" (visão pedestre que desconsidera o fato de que esse mesmo regime resultou em mais e melhores empregos no curso da história). Sem dar às questões a complexidade que elas merecem, as aulas abrangem de tudo: no Espírito Santo, por exemplo, a filosofia abarca da culinária capixaba aos ritmos indígenas. Conclui o sociólogo Simon Schwartzman: "Tratadas com superficialidade e viés ideológico, essas disciplinas só tendem a estreitar, no lugar de ampliar, a visão de mundo".
O viés presente nas aulas de sociologia e filosofia tem suas raízes fincadas nas faculdades de ciências sociais - de onde saíram, ou a que ainda pertencem, os professores responsáveis pela confecção dos atuais currículos. Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo - e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). Diz a doutora em ciências sociais Eunice Durham, da Universidade de São Paulo: "Boa parte dessas faculdades propaga apenas panfletos pseudomarxistas repletos de clichês e generalizações, sem se dar sequer ao trabalho de consultar o original". Isso se reflete agora, e de forma acentuada, nos currículos escolares de sociologia e filosofia, criticados até mesmo por quem participou da feitura deles. À frente da equipe que compôs os do Rio de Janeiro, a educadora Teresa Pontual, subsecretária estadual de Educação, chega a reconhecer: "Se criássemos diretrizes distantes demais da realidade dos professores, eles simplesmente não as aplicariam na sala de aula - fomos apenas realistas".
Sob a influência francesa, a sociologia e a filosofia começaram a ganhar espaço no ensino médio brasileiro no fim do século XIX, até se tornarem obrigatórias, ainda que com pequenas interrupções, entre 1925 e 1971. Seu retorno definitivo ao currículo, sacramentado por uma lei aprovada no Congresso dois anos atrás para entrar em vigor justamente agora, era um pleito antigo dos sindicatos dos profissionais dessas áreas. Em 2001, projeto de lei com o mesmo propósito havia passado pelo Congresso, só que acabou vetado pelo então presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso. À época, um parecer do MEC afirmava que os gastos para os estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender à nova demanda. Desta vez, o próprio ministro Fernando Haddad, filósofo de formação, empenhou-se para aprovar o texto. Daqui para a frente, de acordo com um levantamento do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, serão recrutados mais 20 000 professores no país inteiro. Trata-se de algo temerário, segundo alerta o sociólogo Bolívar Lamounier: "Não há tanta gente qualificada para desempenhar tal função no Brasil". A experiência recente das próprias escolas já sinaliza isso. "Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica", conta Sílvio Barini, diretor do São Domingos, colégio particular de São Paulo.
Ao obrigar as escolas a ensinar sociologia e filosofia a todos os alunos, o Brasil se junta à maioria dos países da América Latina - e se distancia dos mais avançados em sala de aula, que oferecem essas disciplinas apenas como eletivas. Deixá-las de fora da grade fixa é uma decisão que se baseia no que a experiência já provou. Resume o economista Claudio de Moura Castro, articulista de VEJA e especialista em educação: "Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil". Em outros países da América Latina, esse tipo de iniciativa também costuma resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda, preponderante nas escolas. Não será desse jeito que o Brasil dará o necessário passo rumo à excelência.


Fonte: Veja

17 de janeiro de 2010

Dificuldades de aprendizagem - uma abordagem

Neste momento em que nos deparamos com a volta às aulas, faz-se primordial a análise do tema abaixo exposto, que de forma suscinta foi apresentado pela professora Jussara, no texto que transcrevi na íntegra. Gostaria de indicar a leitura atenta do livro Dificuldades de Aprendizagem de A a Z, de Corinne Smith e Lisa Strick, da editora Artmed e tradução de Dayse Batista. Um livro de cabeceira para profissionais da educação interessados em apresentar soluções e contribuir para o crescimento pessoal dos educandos.

Dificuldades de Aprendizagem

Por Jussara de Barros (*)
A área da educação nem sempre é cercada somente por sucessos e aprovações. Muitas vezes, no decorrer do ensino, nos deparamos com problemas que deixam os alunos paralisados diante do processo de aprendizagem, assim são rotulados pela própria família, professores e colegas.
É importante que todos os envolvidos no processo educativo estejam atentos a essas dificuldades, observando se são momentâneas ou se persistem há algum tempo.
As dificuldades podem advir de fatores orgânicos ou mesmo emocionais e é importante que sejam descobertas a fim de auxiliar o desenvolvimento do processo educativo, percebendo se estão associadas à preguiça, cansaço, sono, tristeza, agitação, desordem, dentre outros, considerados fatores que também desmotivam o aprendizado.
A dificuldade mais conhecida e que vem tendo grande repercussão na atualidade é a dislexia, porém, é necessário estarmos atentos a outros sérios problemas: disgrafia, discalculia, dislalia, disortografia e o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).
- Dislexia: é a dificuldade que aparece na leitura, impedindo o aluno de ser fluente, pois faz trocas ou omissões de letras, inverte sílabas, apresenta leitura lenta, dá pulos de linhas ao ler um texto, etc. Estudiosos afirmam que sua causa vem de fatores genéticos, mas nada foi comprovado pela medicina.
- Disgrafia: normalmente vem associada à dislexia, porque se o aluno faz trocas e inversões de letras conseqüentemente encontra dificuldade na escrita. Além disso, está associada a letras mal traçadas e ilegíveis, letras muito próximas e desorganização ao produzir um texto.
- Discalculia: é a dificuldade para cálculos e números, de um modo geral os portadores não identificam os sinais das quatro operações e não sabem usá-los, não entendem enunciados de problemas, não conseguem quantificar ou fazer comparações, não entendem seqüências lógicas e outros. Esse problema é um dos mais sérios, porém ainda pouco conhecido.
- Dislalia: é a dificuldade na emissão da fala, apresenta pronúncia inadequada das palavras, com trocas de fonemas e sons errados, tornando-as confusas. Manifesta-se mais em pessoas com problemas no palato, flacidez na língua ou lábio leporino.
- Disortografia: é a dificuldade na linguagem escrita e também pode aparecer como conseqüência da dislexia. Suas principais características são: troca de grafemas, desmotivação para escrever, aglutinação ou separação indevida das palavras, falta de percepção e compreensão dos sinais de pontuação e acentuação.
- TDAH: O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um problema de ordem neurológica, que trás consigo sinais evidentes de inquietude, desatenção, falta de concentração e impulsividade. Hoje em dia é muito comum vermos crianças e adolescentes sendo rotulados como DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção), porque apresentam alguma agitação, nervosismo e inquietação, fatores que podem advir de causas emocionais. É importante que esse diagnóstico seja feito por um médico e outros profissionais capacitados.
Professores podem ser os mais importantes no processo de identificação e descoberta desses problemas, porém não possuem formação específica para fazer tais diagnósticos, que devem ser feitos por médicos, psicólogos e psicopedagogos. O papel do professor se restringe em observar o aluno e auxiliar o seu processo de aprendizagem, tornando as aulas mais motivadas e dinâmicas, não rotulando o aluno, mas dando-lhe a oportunidade de descobrir suas potencialidades.
(*) Graduada em Pedagogia - Equipe Brasil Escola

10 de janeiro de 2010

Volta às aulas - a recepção aos novos e velhos alunos

Boas-vindas bem planejadas


A acolhida nos primeiros dias de aula é fundamental para estabelecer o vínculo do aluno com a escola

Depois de planejar com a equipe gestora, os docentes e os funcionários como será o ano na sua escola, reserve um período da semana pedagógica para organizar a recepção dos alunos na primeira semana de aula. Os professores já terão informações sobre as turmas para as quais darão aulas e isso certamente ajudará nas relações que se estabelecerão no início do ano letivo. Com todo o grupo, pense nos detalhes que farão com que os alunos se sintam acolhidos e formem (ou fortaleçam) os laços afetivos com a escola condição importante para que a aprendizagem aconteça. A seguir, uma pauta para você discutir com a equipe:


1. Organização das salas

Antes de os alunos chegarem, combine com professores e funcionários a maneira como a sala de aula deve estar organizada. No primeiro dia, as formações circulares facilitam a integração e por isso são mais indicadas do que fileiras (que não favorecem a socialização). Nas salas da Educação Infantil, aconselha-se a organizar cantos de brincadeiras (veja exemplos no vídeo Ateliê de Entrada) - para ajudar a entreter as crianças antes que a turma esteja completa e também já iniciando um processo de socialização e aprendizagem. A coordenação pedagógica, junto com os professores de cada turma, poderá decidir quais cantos são mais interessantes para as diversas faixas etárias.

2. Recepção

Decidam em conjunto o local em que cada um receberá os alunos. A sugestão é que a equipe gestora fique no portão para cumprimentar não somente as crianças e os jovens mas também os pais que costumam acompanhar os filhos à escola. Os professores podem esperar pelos alunos na porta da sala de aula. Combine com os funcionários de apoio que eles se posicionem nos corredores e em locais em que possam ajudar a informar a localização de cada classe ou ainda orientar sobre o caminho para os banheiros, o bebedouro etc. e outras dúvidas que os estudantes possam ter.

3. Apresentação em sala de aula

Reflita com os professores sobre a importância de apresentar os novos alunos aos demais antes do início dos trabalhos. Peça aos docentes que estimulem a criança a falar um pouco sobre ele mesmo, seu histórico e sua relação com os estudos. Depois, todos podem contar o que fizeram durante as férias. Os professores podem contribuir dando ideias para organizar esse momento e apresentar maneiras de fazer isso. Exemplos: cada aluno pode contar sobre algo que aprendeu nas férias, um lugar que visitou, uma história que leu ou assistiu. Entre os mais velhos, também é interessante falar dos planos que têm para o ano, o que pode incluir um curso ou uma atividade extra ou estudar para o vestibular.

4. Tutoria dos veteranos

É comum que os alunos novos demorem um pouco para se enturmar com um grupo já formado. Para facilitar esse período, adote um sistema de tutoria em que um colega da turma que já estuda na escola há mais tempo mostre ao novato todos os departamentos, o acompanhe e oriente em relação aos procedimentos da escola e tire suas dúvidas. Esse acompanhamento pode variar de uma semana a um mês. Algumas escolas marcam o início das aulas para os novatos um ou dois dias depois do início oficial das aulas. Nesses dias, o professor dá informações sobre o novo colega que vai chegar (nome, de onde ele vem, o que fazem os pais etc.) e escolhe o aluno que fará a tutoria. Em instituições em que há grêmio estudantil, essa recepção pode ser feita por um membro da entidade.

5. Primeiro contato com cada setor

Reforce também a importância dos funcionários de apoio e administrativos serem receptivos com todos e especialmente solícitos com quem ainda não conhece as dependências e rotina da unidade. Estude a hipótese de a classe do primeiro ano - em que todos devem ser novos - fazer uma excursão pela escola com paradas em cada setor para que um responsável da área explique o funcionamento da cantina, da biblioteca, da secretaria, etc. Algumas escolas marcam o início das aulas em dias diferentes para cada três ou quatro turmas para que todos os funcionários deem atenção a chegada de todos.

6. Aulas inaugurais diferenciadas

As primeiras aulas devem apresentar os conteúdos que serão trabalhados durante um período (bimestre, trimestre ou semestre), de acordo com o que foi planejado na semana pedagógica. Uma maneira de apresentar os projetos que serão desenvolvidos é mostrar à turma os trabalhos feitos sobre o tema em anos anteriores. Ao coordenador pedagógico, cabe orientar os professores para que façam uma avaliação inicial antes de introduzir cada conteúdo. As perguntas, quando bem elaboradas, além de dar uma noção precisa do que cada aluno sabe sobre o tema e de que ponto os professores podem avançar, servem para despertar a curiosidade e dar uma prévia do que as crianças aprenderão durante o projeto.

7. Regras bem compreendidas

Decida com a equipe, também no final da semana pedagógica, quem apresentará o estatuto da escola - e como - e em que momentos serão feitos os combinados entre professores e alunos. O próprio diretor pode ter essa função. Para isso, ele precisará ir de sala em sala, se apresentando, dando as boas vindas e explicando algumas regras de convivência já em vigor - que devem ser transmitidas de forma que os alunos entendam porque elas existem. Uma sugestão é partir dos direitos de cada um para os deveres de todos. Por exemplo: todo estudante tem direito a material didático de qualidade, para isso cada um deve cuidar bem dos livros que usará naquele ano para que eles possam ser reutilizados no próximo. É importante gastar alguns minutos com o assunto logo nos primeiros dias de aula, antes que as situações em que caberia o uso de determinadas regras ocorram. Com as regras gerais conhecidas, cada professor pode organizar com a uma turma os combinados internos. Para isso é preciso ouvir os alunos e sistematizar as discussões, chegando a normas internas para cada grupo.

Fonte: Nova Escola

7 de janeiro de 2010

Mérito educacional - uma visão ajuizada do tapetão vigente

Aprovação escolar sem mérito


Por Içami Tiba (*)

O que mais fere um professor digno é ter que aprovar um aluno que não mereça. Mas por que o professor tem que aprovar aluno não merecedor?

Porque o professor é pressionado pelos governos, donos da escola, diretoria/supervisor de ensino/coordenador de área, pais do aluno não merecedor, insultuoso excesso de trabalho, aviltante salário, falta de condições adequadas de atualização do processo ensino/aprendizagem, mercantilização do ensino, falta de respeito/reconhecimento e abuso dos alunos, destruição do sonho ao abraçar a carreira de professor, que maltratam sua alma pela destruição de sua auto-estima.

Professores do ensino público foram guilhotinados nas suas funções de ensino/aprendizagem quando se viram obrigados a aprovar todos os estudantes por uma lei que proibia a reprovação a não ser pelas faltas às aulas. Esta lei ficou conhecida como "aprovação automática". Aprender ou não deixou de ser significativo e o aluno era simplesmente aprovado. Os "beneficiados" por esta lei estão constatando pela sua vida prática o quanto foram prejudicados, pois o mercado de trabalho não emprega quem não tem competência, que é o que os alunos deixaram de adquirir ao não aprender o necessário para merecer um diploma. São formados até pelo ensino médio, mas são analfabetos funcionais.

Muitos donos de escola autodenominam-se como mantenedores. Pelo Houaiss, mantenedor é aquele que mantém, sustenta, defende, protege e vem da palavra espanhola mantener, que significa "manter, prover de alimento". Hoje, muitos mantenedores têm suas escolas como fontes de renda. Mensalidades pagas pelos alunos mantêm e 'alimentam' a escola. Uma escola privada que não gere renda torna-se financeiramente inviável e é fechada ou vendida. Os alunos como clientes de lojas "sempre têm razão". Basta reclamarem ou brigarem com um professor para ameaçarem procurar outra escola. O docente, num episódio como esse, pode ser advertido, punido ou até mesmo despedido pelo mantenedor. Esquecem-se os mantenedores escolares que os alunos geralmente estão pouco interessados em aprender e muito menos em estudar e querem ser aprovados. A maioria dos professores acaba sendo atropelada pelos interesses financeiros dos mantenedores. Os verdadeiros mantenedores são empresas, ONGs, instituições beneficentes que realmente sustentam escolas cujos alunos nada ou pouco pagam para estudar e aprender.

Quando surgem conflitos entre professores e alunos, a maioria dos diretores, supervisores e coordenadores de ensino acaba atendendo mais aos interesses dos alunos que ao currículo programático e os interesses pedagógicos. Eles temem pais querelantes que ameaçam denunciar e até processar a escola e seus funcionários para superproteger, mesmo que indevidamente, os seus filhinhos, verdadeiros príncipes herdeiros. As maiores vítimas das agressões nas escolas são os professores, o elo mais frágil da educação, quando deveria ser o mais forte, pois eles representam a escola na educação. 20% das agressões aos professores vêm diretamente dos pais.

Pais que vêm questionar por que o seu inocente filho está sendo perseguido por algum professor desalmado ou implorar para que o seu esforçado filho não repita de ano por causa de um único pontinho na nota. Esses pais estão financiando o despreparo e a má formação do seu filho quando assim o fazem. Professores são representantes sociais que os alunos têm que aprender a respeitar. Os filhos não podem cuspir no prato que comem e os alunos não podem maltratar os professores que os capacitam para a vida.

Quais foram os sonhos e as pretensões que alimentaram os professores quando jovens, para que eles resolvessem abraçar o magistério? Na sua etimologia, o Houaiss traz: lat. magisterìum,ìi 'dignidade, ofício de chefe; meio de curar, tratamento'. Mas a prática e os sistemas de educação no Brasil tiraram do docente a sua alma generosa, digna e necessária à formação dos futuros cidadãos, e colocaram no lugar a falta do reconhecimento, a impotência, a pobreza, a dificuldade e/ou impossibilidade de atualização na sua carreira e a desrealização do seu ofício, quando lhe tiraram a competência de avaliar se o aluno merece ou não ser aprovado.

Fonte: UOL Educação

(*) Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 25 livros.

3 de outubro de 2009

Augusto Nunes entrevista Içami Tiba sobre adolescência

Nesta entrevista, Içami Tiba, educador e psiquiatra especialista em questões ligadas à adolescência, fala sobre os problemas e qualidades da chamada Geração Digital e sobre o comportamento dos jovens do século XXI em relação a valores morais como a honestidade e o respeito aos mais velhos. Para o entrevistado, a escola e a família ainda não aprenderam a lidar com essas crianças que buscam, sobretudo, resultados práticos e imediatos. Autor de 27 livros e com mais de 75 mil atendimentos em sua clínica particular, Tiba acredita que castigar fisicamente os filhos configura um descontrole dos pais, ação que pode ser determinante quando os papéis se inverterem na velhice. Ele também sustenta que a criminalidade está vinculada à formação familiar, uma vez que 80% dos adolescentes envolvidos em delitos são filhos de pai desconhecido.







Fonte: Augusto Nunes / Veja

26 de setembro de 2009

Um retrato da sala de aula

Poucos especialistas observaram tão de perto o dia a dia em escolas brasileiras quanto o americano Martin Carnoy, 71 anos, doutor em economia pela Universidade de Chicago e professor na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, onde atualmente também comanda um centro voltado para pesquisas sobre educação. Em 2008, Carnoy veio ao Brasil, país que ele já perdeu as contas de quantas vezes visitou, para coordenar um estudo cujo propósito era entender, sob o ponto de vista do que se passa nas salas de aula, algumas das razões para o mau ensino brasileiro. Ele assistiu a aulas em dez escolas públicas no país, sistematicamente – e chegou até a filmá-las –, além de falar com professores, diretores e governantes. Em entrevista à editora Monica Weinberg, Martin Carnoy traçou um apurado cenário da educação no Brasil.
COMO NO SÉCULO XIX
Está claro que as escolas brasileiras – públicas e particulares – não oferecem grandes desafios intelectuais aos estudantes. No lugar disso, não é raro que eles passem até uma hora copiando uma lição da lousa, à moda antiga, como se estivessem num colégio do século XIX. Ao fazer medições sobre como o tempo de aula é administrado nos colégios que visitei, chamaram-me a atenção ainda a predominância do improviso por parte dos professores, os minutos preciosos que se esvaem com a indisciplina e a absurda quantidade de trabalhos em grupo. Eles consomem algo como 30% das aulas e simplesmente não funcionam. A razão é fácil de entender: só mesmo um professor muito bem qualificado é capaz de conferir eficiência ao trabalho em equipe ou a qualquer outra atividade que envolva o intelecto. E o Brasil não conta com esse time de professores de alto padrão. Ao contrário. O nível geral é muito baixo.
MENOS TEORIA E MAIS PRÁTICA
Falta ao Brasil entender o básico. Os professores devem ser bem treinados para ensinar – e não para difundir teorias pedagógicas genéricas. As faculdades precisam estar atentas a isso. Um bom professor de matemática ou de línguas é aquele que domina o conteúdo de sua matéria e consegue passá-lo adiante de maneira atraente aos alunos. Simples assim. O que vejo no cenário brasileiro, no entanto, é a difusão de um valor diferente: o de que todo professor deve ser um bom teórico. O pior é que eles se tornam defensores de teorias sem saber sequer se funcionam na vida real. Também simplificam demais linhas de pensamento de natureza complexa. Nas escolas, elas costumam se transformar apenas numa caricatura do que realmente são.
QUE CONSTRUTIVISMO É ESSE?
O construtivismo que é hoje aplicado em escolas brasileiras está tão distante do conceito original, aquele de Jean Piaget (psicólogo suíço, 1896-1980), que não dá nem mesmo para dizer que se está diante dessa teoria. Falta um olhar mais científico e apurado sobre o que diz respeito à sala de aula. É bem verdade que esse não é um problema exclusivamente brasileiro. Especialistas no mundo todo têm o hábito de martelar seus ideários sem se preocupar em saber que benefícios eles trarão ao ensino. Há um excesso de ideologia na educação. No Brasil, a situação se agrava porque, acima de tudo, falta o básico: bons professores.
Tempo mal gasto
Ensino brasileiro: ausência de desafios intelectuais e excesso de improviso

À CAÇA DE MESTRES BRILHANTES
A chave para um bom ensino é conseguir atrair para a carreira de professor os melhores estudantes. Basta copiar o que já deu certo em países como Taiwan, que reuniu em seu quadro de docentes algumas das melhores cabeças do país. Ali, um professor ganha tanto quanto um engenheiro – o que, por si só, já atrai os alunos mais talentosos para a docência. Mas não é só isso. Está provado que, para despertar o interesse dos mais brilhantes pela sala de aula, é preciso, sobretudo, dar-lhes uma perspectiva de carreira e de reconhecimento pelo talento que os distingue. No Brasil, o pior problema não está propriamente na remuneração dos professores, até razoável diante das médias salariais do país – mas justamente na ausência de um bom horizonte profissional.
VIGILÂNCIA SOBRE OS PROFESSORES
Os professores brasileiros precisam, de uma vez por todas, ser inspecionados e prestar contas de seu trabalho, como já ocorre em tantos países. A verdade é que, salvo raras exceções, no Brasil ninguém sabe o que eles estão ensinando em sala de aula. É o que me faz comparar as escolas públicas brasileiras às empresas pré-modernas. Elas não contam com mecanismos eficazes para cobrar e incentivar a produtividade. Contratam profissionais que ninguém mais no mercado quer, treinam-nos mal e, além disso, não exercem nenhum tipo de controle sobre eles. Hoje, os professores brasileiros estão, basicamente, livres para escolher o que vão ensinar do currículo. Não há padrão nenhum – tampouco há excelência acadêmica.
NA LINHA DA MEDIOCRIDADE
É boa notícia que os brasileiros comecem a colocar a educação entre suas prioridades, mesmo que isso ocorra com tanto atraso em relação aos países mais desenvolvidos. Percebo no Brasil, no entanto, uma visão ainda bastante distorcida da realidade – típica de países onde as notas dos estudantes são, em geral, muito baixas. A experiência indica que, num cenário como esse, até mesmo os ótimos alunos tendem a se nivelar por baixo. Com um resultado superior à média, eles já se dão por satisfeitos, assim como seus pais e escolas. Na verdade, estão todos mirando a linha da mediocridade. E é lá que estão mesmo. Os exames internacionais da OCDE (organização que reúne os países mais ricos) mostram isso com clareza. Os alunos brasileiros que aparecem entre os 10% melhores são, afinal, menos preparados do que alguns dos piores estudantes da Finlândia. Os finlandeses, por sua vez, definem suas metas com base num altíssimo padrão de excelência acadêmica. É esse ciclo virtuoso que o Brasil deve perseguir – em todos os níveis.
CHEGA DE UNIVERSIDADE GRATUITA
Se quiser mesmo se firmar como uma potência no cenário mundial, o Brasil precisa investir mais na universidade. É verdade que os custos para manter um estudante brasileiro numa faculdade pública já figuram entre os mais altos do planeta. Por isso, é necessário encarar uma questão espinhosa: a cobrança de mensalidades de quem pode pagar por elas, como funciona em tantos países de bom ensino superior. Sempre me pergunto por que a esquerda brasileira quer subsidiar os mais ricos na universidade. É um contrassenso. Olhe o que aconteceria caso os estudantes de renda mais alta pagassem algo como 1 000 dólares por ano às instituições públicas em que estudam. Logo de saída, o orçamento delas aumentaria na casa dos 15%. Com esse dinheiro, daria para atrair professores do mais alto nível. Quem sabe até um prêmio Nobel. O Brasil precisa, afinal, começar a se nivelar por cima.
Fonte: Veja

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