A multiplicidade de funções da linguagem verbal possibilita a cada homem participar da sociedade, integrando-se em um processo cultural mais amplo. Partindo do pressuposto de que a língua representa uma cultura e tem, portanto, um valor de representação, inúmeros lingüistas desenvolveram hipóteses teóricas na tentativa de descrever um conjunto mais amplo de funções.
Karl Bühler, lingüista e psicólogo alemão, sistematizou as funções da linguagem tomando, como ponto de partida, a representação - característica, por excelência, da língua - e reconhecendo duas outras funções, a manifestação psíquica e o apelo. Kainz, discípulo de Bühler, por considerar que a representação está presente em todo ato lingüístico, introduziu uma alteração no quadro de seu mestre. Para Kainz, a representação está presente em três funções: a informação, a manifestação psíquica e o apelo.
Jakobson, por sua vez, manteve as três funções apontadas anteriormente, mas atribuiu-lhes novos nomes: referencial, emotiva e conativa, respectivamente. Além disto, introduziu três novas funções: fática, metalingüística e poética. Distinguiu, portanto, seis funções ao todo, relacionando cada uma delas a um dos componentes do processo comunicativo. Desta forma, em cada ato de fala, dependendo de sua finalidade, destaca-se um dos elementos da comunicação, e, por conseguinte, uma das funções da linguagem.
Elementos da Comunicação | Funções da Linguagem |
contexto (referente) | referencial |
remetente | emotiva |
mensagem | poética |
destinatário | conativa |
contato (canal) | fática |
código | metalingüística |
Quadro das Funções da Linguagem segundo Jakobson
É preciso esclarecer que as seis funções não se excluem - dificilmente temos, em uma mensagem, apenas uma dessas funções. Entretanto, é engano pensar que todas estejam presentes simultaneamente. O que pode ocorrer é o domínio de uma das funções; assim, temos mensagens predominantemente referenciais, predominantemente expressivas, etc. Embora se reconheça que o estudo das funções da linguagem, centradas nos componentes do ato da fala, seja importante para perceber como o texto se constrói, é preciso lembrar que este estudo não deve se restringir a si mesmo, como é comum em diversos livros didáticos de Língua Portuguesa. Esta orientação tem trazido como conseqüência, para o estudante, uma visão estanque da linguagem, como se as funções pudessem existir independentes umas das outras, desvinculadas dos mecanismos de construção da textualidade.
Lingüistas como Lyons (1977), Brown e Yule (1983) retomaram o estudo das funções da linguagem, com outras abordagens. Brown e Yule enfatizam a importância da análise da língua em uso e apontam apenas dois termos para definir as mais importantes funções da linguagem: a transacional - relacionada com a expressão do conteúdo - , e a interacional, que expressa relações sociais e atitudes pessoais. Atualmente, a tendência é considerar duas grandes funções da linguagem: a cognitiva ou referencial e a pragmática ou interacional.
"A Pragmática é uma dimensão no estudo da linguagem que pretende compreender o estudo da língua como meio de ação, de atuação sobre os ouvintes ou leitores. Ela leva em conta os interlocutores e o contexto de situação. Quais são os elementos lingüísticos capazes de atuar no leitor? Eles são variados e ocorrem nos diferentes níveis lingüísticos, isto é, na seleção vocabular (léxico), na construção sintática, no uso de figuras (estilística) e nas estratégias semântico-pragmáticas ao apresentar idéias e argumentos." (Souza e Carvalho,1992) |
Ingedore Koch, em Linguagem e Interação, ao procurar descrever e explicar as estratégias lingüísticas utilizadas pelo ser humano para interagir socialmente, discute as diferentes concepções de linguagem:
"A linguagem humana tem sido concebida, no curso da História, de maneiras bastante diversas, que podem ser sintetizadas em três principais: a) como representação ("espelho") do mundo e do pensamento; b) como instrumento ('ferramenta") de comunicação; c) como forma ("lugar") de ação ou interação. A mais antiga destas concepções é, sem dúvida, a primeira, embora continue tendo seus defensores na atualidade. Segundo ela, o homem representa para si o mundo através da linguagem e, assim sendo, a função da língua é representar (= refletir) seu pensamento e seu conhecimento de mundo. A segunda concepção considera a língua como um código através do qual um emissor comunica a um receptor determinadas mensagens. A principal função da linguagem é, neste caso, a transmissão de informações. A terceira concepção, finalmente, é aquela que encara a linguagem como atividade, como forma de ação, ação interindividual finalisticamente orientada; como lugar de interação que possibilita aos membros de uma sociedade a prática dos mais diversos tipos de atos, que vão exigir dos semelhantes reações e/ou comportamentos, levando ao estabelecimento de vínculos e compromissos anteriormente inexistentes. Trata-se, como diz Geraldi (1991), de um jogo que se joga na sociedade, na interlocução, e é no interior de seu funcionamento que se pode procurar estabelecer as regras de tal jogo." |
Essa interação se realiza de maneiras diferentes conforme a modalidade de uso da língua: na língua escrita, por exemplo, o emissor não está em intercâmbio direto com o receptor, e, por isso, a explicitação de todos os elementos é fundamental para a compreensão da mensagem e o contexto extralingüístico deve ser descrito em detalhe; na conversação natural, são muitas as informações que não precisam aparecer sob a forma de palavras, já que o contexto situacional e os dados que falante e ouvinte dominam, um do outro, permitem a seleção das informações que serão subtendidas.
Na língua falada, portanto, a compreensão não depende apenas de uma decodificação linear dos componentes semânticos dos vocábulos utilizados no enunciado -- a compreensão deve ir mais além. É aí que surge o conceito de implicatura conversacional, exigindo inferências por parte do interlocutor -- esse é o espaço de estudo da pragmática. Quando alguém se dirige a outra pessoa, dizendo: "Ufa, que calor, hein!", pode estar querendo abrir a janela, ou ligar o ventilador, sem um pedido direto. A mensagem só será entendida se o interlocutor estiver ligado na situação, decodificando possíveis gestos e expressões faciais do falante.
Também as piadas são textos que exigem inferências por parte do ouvinte, já que seu conteúdo ultrapassa o âmbito da mera significação das palavras, jogando sim com uma contextualização mais ampla e com dados que são de conhecimento restrito de um grupo social, de uma comunidade específica, de um momento histórico. Não é à toa que não entendemos piadas de americanos e ingleses, por exemplo, que se consideram grandes humoristas. Por não dominarmos as referências culturais, contextuais ou situacionais das suas piadas, não conseguimos fazer as inferências necessárias.
Leia a expressão poética do lingüista Hjelmslev sobre o conceito de linguagem:
"As funções da linguagem" , de Louis Hjelmslev.
A linguagem - a fala humana -
é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores.
A linguagem é inseparável do homem e
segue-o em todos os seus atos.
A linguagem é o instrumento graças ao qual
o homem modela o seu pensamento,
seus sentimentos,
suas emoções,
seus esforços,
sua vontade e seus atos,
o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado,
a base última e mais profunda da sociedade humana.
Mas é também o recurso último e indispensável do homem,
seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito
luta com a existência,
e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta
e na meditação do pensador.
Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência,
as palavras já ressoavam à nossa volta,
prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento
e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida,
desde as mais humildes ocupações da vida quotidiana
aos momentos mais sublimes e mais íntimos
dos quais a vida de todos os dias retira,
graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e
calor.
A linguagem não é um simples acompanhante,
mas sim um fio profundamente tecido na trama do
pensamento;
para o indivíduo, ele é o tesouro da memória e
a consciência vigilante transmitida de pais para filho.
Para o bem e para o mal,
a fala é a marca da personalidade,
da terra natal e da nação,
o título de nobreza da humanidade
Leituras Complementares sobre funções da linguagem
- KOCH, Ingedore, G. Vilaça. A inter-ação pela Linguagem. S.Paulo, Contexto, 1996
- OLIVEIRA, Elizabeth Brait et alii. Aulas de Redação. São Paulo. Atual, 1980, pp 22 / 31
- SOUZA, Luiz Marques e CARVALHO, Sérgio Waldeck de. Compreensão e produção de textos. Rio de Janeiro, Libro, 1992. pp 9 / 15.
- VAN DIJK. Cognição, discurso e interação. S.Paulo, Contexto, 1992.




