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1 de julho de 2010

A geração de vidro

Psicanalistas alertam para problemas da Geração Narcisista, formada por crianças que só recebem elogios e não batalham por nada


"Psicanalistas e psiquiatras americanos alertam para um problema que vem se agravando ao longo dos últimos 15 anos e chega agora ao seu ápice: a chamada Geração Narcisista. São crianças que recebem elogios e são premiadas por qualquer conquista, mesmo aquelas que em outros tempos não passavam de obrigações, como tirar boas notas, ajudar com as tarefas da casa ou comportar-se bem. Segundo Rob Asghar, autor de "Lições da Guerra Santa", em artigo no " The Huffington Post ", o movimento de se elogiar o tempo todo as crianças por conquistas imaginárias está associado à tendência "E" ("entitled", de acumular títulos) e os responsáveis por isso são, sim, os pais.
Um dos maiores vilões da Geração Narcisista, mostram os psicanalistas, é o culto exagerado à autoestima. O que Rob Asghar percebeu é que não batalhar para ser aprovado pode gerar cidadãos até ajustados. Mas, segundo ele, todos os empregadores em busca de novos funcionários são unânimes em afirmar que os jovens não sabem se empenhar para conquistar nada nos dias de hoje. Querem tudo de mão beijada e já se sentem, de antemão, elogiados.
Bill Maier, um terapeuta de família do Colorado especializado em treinamento dos pais, disse que está chocado com o aumento do que ele chama de pais permissivos. Esses pais falham no dever de estabelecer limites para os filhos:
- Esse tipo de pai e mão não consegue estabelecer limites para o comportamento da criança. Até mesmo para comportamentos que não são saudáveis, são perigosos ou destruitivos. Esses pais estão tão preocupados em serem amados por seus filhos que pagam por qualquer capricho das crianças - explica Maier.
Maier diz que há um efeito cascata nesse tipo de comportamento dos pais:
- Mesmo que você faça um bom trabalho, o universo que cerca o seu filho será o de crianças que têm pais permissivos e isso vai gerar uma influência sobre o seu: pense sobre o bullying, sobre as trapaças dos colegas de classe, de abusos de namorados ou namoradas.
Joanne Weidman, terapeuta de família da Califórnia, disse que o narcisismo que existe entre os pequenos é resultado de uma tendência narcisista de seus próprios pais. E atribui aos pais uma acomodação com relação à educação dos filhos e expectativas irreais sobre o sucesso deles que são extremamente prejudiciais.
Os sinais estão em competições tolas entre os próprios pais - do tipo quem faz a maior e melhor festa para uma criança de 2 anos que não tem nem condições de aproveitar a comemoração.
- Temos crianças com uma prateleira cheia de troféus e uma casa cheia de fotos de todos os seus movimentos, mas nenhuma ideia de quem eles realmente sejam - explica Weidman."
Fonte: O Globo

20 de setembro de 2009

Estímulo em excesso gera criança com males de adulto

Por Simone Iwasso

'Superpais' saturam filhos com atividades e causam distúrbios, como depressão e fadiga


Cercadas de estímulos e equipadas com aparatos tecnológicos que dão acesso a todo tipo de informação, parte das crianças de hoje vive um novo tipo de infância. Nesse cenário, mais comum entre as classes média e alta, a obrigação é ter o melhor e ser o melhor - ótimos alunos, bons esportistas e com talentos artísticos em desenvolvimento.

O resultado: expectativas e cobranças altas que geram pressão, levando a criança a se parecer com ser adulto - ainda que seja um adulto infantilizado. Não à toa, esse grupo tende a apresentar, ainda na infância, distúrbios e sintomas típicos de homens e mulheres da vida moderna. Crescem os casos de depressão, autoagressão, distúrbios alimentares e fadiga crônica precoces.

Pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) aponta que 5 milhões de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos no País (12,6%) têm sintomas de transtornos psiquiátricos. Para atender a essa demanda, há ambulatórios que oferecem assistência no tratamento de depressão para crianças a partir dos 3 anos. Também são comuns problemas relacionados ao stress, como dores de cabeça e estômago.

Esse quadro tem gerado um número crescente de crianças que tomam medicamentos para alterar sua conduta e seu estado de ânimo - em muitos casos, segundo pesquisas, sem necessidade. Cerca de 10% das crianças americanas tomam remédios e, no Brasil, a venda dessas substâncias mais do que quintuplicou nos últimos cinco anos.

"Vivemos uma época de superpais que querem criar superfilhos, mas o resultado é uma supercriança para sempre, que, ao mesmo tempo em que é carregada de atividades escolhidas pelos pais, não tem autonomia para amadurecer e fazer escolhas", resume a psicóloga Lidia Aratangy, da PUC-SP. "Viram filhos troféus para os pais."

Na avaliação da psicóloga, esse cenário está ligado à insegurança dos pais que, confusos e perdidos na sociedade atual, buscam preparar seus filhos para o mundo sobrecarregando-os de atividades e, como compensação, satisfazendo todos os seus desejos.

"Acredito que o maior fator para a cultura desses superpais é o medo. O medo de deixar o potencial das crianças para trás, de que com isso elas podem ser prejudicadas no futuro, que serão infelizes por uma negligência", afirma o historiador escocês Carl Honoré, autor de um livro sobre o tema (mais informações nesta página).

No caso da fonoaudióloga e pedagoga Claudia Cotes, mãe de duas crianças, os excessos cometidos com a primeira filha a fizeram repensar a educação do segundo. "Com a Carolina, eu aplicava tudo o que aprendia na faculdade. Estimulava de todos os jeitos, ficava em cima, aplicava exercícios de neurociência, matriculei na escolinha bilíngue. Se ginástica era importante, ela ia fazer ginástica. Se música é importante, ia aprender música", diz.

"Mas ela ficou tão estimulada que ficou uma criança chata. Perdeu o interesse, achava que não precisava fazer mais nada. Aí percebi o erro e amadureci como mãe", diz. Ela conta que, no segundo filho, fez tudo diferente. "Com o Vitor, deixei as coisas acontecerem no seu tempo, sem tanta pressão, sem tanta ansiedade. E vejo que ele é hoje uma criança mais tranquila e mais feliz."

BULA PARA EDUCAR

Mas a educação não depende só dos pais. Nesse processo entra também a escola que, com dificuldades para lidar com estudantes que saiam um pouco de um ideal imaginado, recorre ao vocabulário médico - os mais distraídos, desobedientes ou tímidos são logo diagnosticados com algum distúrbio, em um processo chamado de medicalização ou patologização do fracasso escolar.

"Para lidar com uma criança qualquer, não existe bula nem fórmula. Mas para lidar com uma uma criança com déficit de atenção existe uma bula. Vivemos um grande engodo", afirma a psicóloga e psicanalista Adriana Carrijo, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Vivemos na sociedade do hiperestímulo, sem foco, e o processo educacional demanda atenção."

Na prática, casos de pais e escolas que se apoiam nesses diagnósticos para proteger as crianças acabam sendo comuns. "O pai leva o atestado para a escola, que fica obrigada a dar atenção especial e prova diferente para essas crianças. Tem criança que cresce acreditando que sem remédio não pode fazer uma prova", diz.

"Hoje, as crianças ficam o dia todo ocupadas, em um entorpecimento", diz a psicopedagoga Irene Maluf, conselheira da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Segundo ela, essa rotina está longe de significar aprendizado. "A criança vira um produto e o que ela mais precisa, que é o tempo e a atenção dos pais, é o que ela menos tem. Quantos pais chegam em casa do trabalho e param para brincar com seus filhos?"

Fonte: Estado de São Paulo

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