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10 de junho de 2012

Uma luz no final do túnel para alunos com deficiência

Do Último Segundo:

Metas educacionais voltam a apoiar classes só para deficientes

O Plano Nacional de Educação (PNE) ganhou metas diferentes das propostas pelo Ministério da Educação no Congresso Nacional. Se o texto for aprovado como está, as classes exclusivas para estudantes deficientes voltarão a receber estímulo. A definição contraria as políticas mais recentes do ministério, que defende a inclusão desses alunos em escolas convencionais. A mudança na redação original do PNE, proposta pelo relator do projeto na Câmara dos Deputados, Ângelo Vanhoni (PT-PR), causou polêmica entre especialistas na última semana. E representou alívio para muitas famílias e representantes de entidades que cuidam de espaços de atendimento específico para deficientes.

Para o MEC, as crianças com deficiências ou transtornos globais de desenvolvimento devem estudar em escolas públicas convencionais. Os colégios têm de se adequar às necessidades dos alunos e dar a eles a chance de conviver com pessoas sem deficiência. A inclusão, na opinião dos gestores e corroborada por muitos especialistas, promove o fim do preconceito e crescimento dos estudantes. O texto apresentado por Vanhoni aos parlamentares, que votarão a proposta no dia 12 de junho, abre possibilidades diferentes. 

Define, na meta 4, que será objetivo do País atender esses alunos, de preferência, na rede regular de ensino. Porém, “garantindo o atendimento educacional especializado em classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou comunitários, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível sua integração nas classes comuns”. Na opinião do deputado Eduardo Barbosa (PSDB-MG), que faz parte do movimento das Apaes há 30 anos, o relatório, agora, “contempla o anseio da sociedade”. Para ele, a decisão “muito técnica” do MEC foi superada por uma “decisão política de governo”.


“Somos a favor da coexistência dos dois tipos de escola para a ampliação das oportunidades educacionais para muitas crianças que não recebem atendimento adequado em escolas regulares”, comenta Sandra Marinho Costa, secretária-executiva e procuradora jurídica da Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), entidade que atende pessoas excepcionais. Sandra conta que 250 mil pessoas são atendidas pelas Apaes em todo o Brasil. Muitas delas, ela diz, tentaram se manter em escolas convencionais, mas não tiveram sucesso. “Fazer matrícula e ir para a escola é uma coisa. Estar incluído é outra bem diferente. Há pessoas com comprometimentos tão sérios que não conseguem receber atenção adequada e terminam isoladas nesses ambientes”, diz.

A representante de uma das associações que mais trabalhou, nos bastidores, para convencer o deputado Vanhoni de que a mudança na meta de número 4 do PNE era importante garante que a defesa das Apaes é por um sistema inclusivo de educação. Segundo Sandra, as famílias têm de ter opções. “E há crianças que, após um atendimento especializado, são plenamente capazes de frequentar escolas regulares e aprender. Outras não”, ressalta. Sabine Antonialli Arena Vergamini, diretora de Unidade Socioeducacional do Centro de Educação para Surdos Rio Branco, em São Paulo, também critica a ideia de que as escolas regulares fazem inclusão. 

“Divisão do espaço físico não significa incluir. Para 99% dos surdos, uma escola só deles é muito melhor”, afirma. Na escola que coordena, Sabine conta que as crianças são alfabetizadas, primeiro, na Língua Brasileira de Sinais (Libras). A língua portuguesa é ensinada como uma segunda língua. As famílias são incluídas no processo. Mantida pela Fundação Rotariana de São Paulo, a escola só atendia crianças carentes até bem pouco tempo. Por conta da demanda, eles decidiram abrir algumas vagas para famílias que podem pagar uma mensalidade: um aluno por cada classe. As turmas têm, no máximo, 10 crianças e as atividades ocorrem em período integral.

Comento: Uma escola que se diz preparada para a inclusão de crianças especiais deve estar preparada em termos de estrutura física e recursos humanos. Qualquer coisa diferente disso é proselitismo e hipocrisia barata. Vejo a discussão do assunto como algo proveitoso para a sociedade, visto que o tema havia sido unilateralmente inserido na agenda da educação básica. E educadores que somos sabemos que a teoria passa longe da prática. Uma luz no final do túnel.

28 de maio de 2012

Sustentabilidade

Do Último Segundo:

Escolas adotam estratégias diversas para ensinar sustentabilidade

Mede, lixa, enverniza, fura. A última reunião do Núcleo do Pensamento Sustentável da escola Santi, em São Paulo, parecia aula de carpintaria. Depois de estudar por meses quais descartes causavam os maiores danos e debater como reduzi-los, o grupo se empenhava na construção de um canecário e uma composteira. A atividade faz parte da estratégia do colégio para desenvolver consciência ecológica nas crianças a partir da prática. O suporte para canecas será colocado na sala dos professores, embora estes ainda não estivessem avisados do projeto até a terça-feira quando o equipamento começou a ser construído. “Não teremos mais copos plásticos”, avisava uma folha de papel colorida caprichosamente pelo grupo e colada ao lado do bebedouro.

A aceitação não foi unânime entre os mestres. “Cada dia vou por um para lavar as canecas”, ameaçou um dos professores. Mas logo veio um pouco de reflexão e a aceitação. “No Japão, o professor ganha a caneca junto com o kit de trabalho no primeiro dia de aula e precisa cuidar até o último”, comentou uma das docentes. “Eu não gosto muito de lavar minha caneca, mas vou fazer isso pelo Planeta e por vocês que estão se empenhando tanto”, disse a outra a aluna que afixava o cartaz. Para os alunos, a razão era fundamentada em dados. Eles mediram um uso mensal de 5 mil copos d’água e 7,5 mil de café em toda a escola e a sala dos professores estava entre os pontos mais consumistas. “Além de gerar uma quantidade enorme de um material que não se desfaz, o plástico com produtos quentes libera uma substância que faz mal a saúde”, comenta Matheus Garcia, 12 anos.


Todos os estudos foram feitos em reuniões semanais de uma hora e meia para pensar a sustentabilidade da escola. Os encontros são fora do horário de aula, não valem nota e a adesão é voluntária. O professor de Ciências, Edward Zvingila, supervisiona e fomenta o debate. Também está em construção uma composteira para o lixo orgânico. Manoela Gonçalves Robeiro, 12 anos, e Isabel Stellino Ahmar, 11 anos, foram as responsáveis por pesquisar o equipamento. “Vão ser três caixas, duas para depósito do lixo, cada uma de uma vez, e a última para o humos, que ele vai gerar e a gente pode usar de adubo”, diz íntima da solução. O professor, orgulhoso da turma, aposta que as mudanças vão ter resultado mais efetivos do que se fossem propostas pela escola. “Os alunos chegaram à conclusão de que era preciso e possível fazer isso, agora eles mesmos cobrarão os demais a fazerem”, afirma.

Simulação da Rio+20
 
No Colégio Magister, na zona sul de São Paulo, a estratégia é debater o quadro global. O tema ambiental será explorado com discussões no próximo mês. Durante os dias 20 e 22 de junho, todos os alunos do 9º ano do ensino fundamental e das três séries do ensino médio irão simular a conferência ambiental Rio+20, que acontecerá oficialmente na capital carioca. Cerca de 200 estudantes serão divididos em comitês de discussão de quatro problemas críticos – emprego, energia, alimentação e água – e representarão diferentes países. Outra parte fará a cobertura jornalística do evento. Desde já, os temas estão sendo trabalhados em sala de aula e pesquisados pelos alunos. O objetivo é estimular competências e habilidades como trabalho em equipe, liderança, argumentação e colocar os jovens para pensar soluções inovadoras para os problemas ambientais globais.

Larissa Santos, 17 anos, aluna do 3º ano do ensino médio e coordenadora geral do grêmio estudantil, avalia que discussões como esta que o colégio irá fazer e a conscientização dos cidadãos são avanços que o evento traz. “Sabemos que o debate da Rio+20 não está longe e que seremos afetados de maneira direta pelas decisões que forem tomadas lá. Espero que as mudanças aconteçam não só de cima pra baixo, mas que sejamosos agentes dessa transformação. Acredito muito na nossa geração”, declara a jovem. O colega Leonardo Alves de Melo, 17 anos, destaca que a simulação permite vivenciar a história na prática. “A gente aprende as relações internacionais e os temas como se fosse um diplomata de um país”, destaca. Para o professor de Atualidades e Língua e Cultura Hispânica do colégio, Pablo Reimers, a simulação permite que estudantes aprendam ao ensinar uns aos outros. “A partir do entendimento crítico, eles terão um posicionamento para transformar aquilo que será a história deles no futuro, e a nossa também.”

26 de março de 2012

Crianças que brincam terão mais sucesso

Do Último Segundo:

Sete perguntas sobre brincadeiras infantis

 Kathleen Alfano: depois da alimentação, afeto e cuidados pessoais, brincadeiras são o mais importante para uma criança

Kathleen Alfano tem mais de 40 anos de experiência em desenvolvimento e educação infantil. Mais de 30 deles foram passados à frente do Play Lab, laboratório de apoio à criação de brinquedos da Fisher-Price. Especialista no assunto reconhecida internacionalmente, ela conheceu o mundo dando palestras em países de culturas tão diferentes quanto Rússia e Japão. Hoje diretora sênior do Departamento de Pesquisa Infantil da empresa, Kathleen também é pesquisadora e PhD em educação.

Ela falou ao Delas sobre brinquedos e brincadeiras diretamente do Play Lab, em East Aurora, nos Estados Unidos, cidade onde ficam os escritórios da Fisher-Price. Segundo Kathleen, a percepção geral de que brinquedos eletrônicos são ruins para a imaginação está equivocada. E os pais precisam aprender a respeitar o tempo de brincadeira dos filhos. “Brincar não é apenas algo que a criança faz para passar o tempo”, resume. Quando bem estimuladas, crianças que brincam tendem a ser mais bem-sucedidas que as outras. Leia a entrevista completa abaixo:

 iG: Qual a importância do brincar para a criança?

Kathleen Alfano:
Segundo estudos acadêmicos e minha própria observação, crianças que brincam são mais bem ajustadas. É por meio da brincadeira que elas aprender a resolver problemas. Elas aprendem a dividir, a se defender, a falar – tudo através da brincadeira. Elas resolvem problemas e treinam o pensamento criativo. Então, quem brinca acaba sendo, segundo estudos, uma criança mais bem ajustada e um aluno melhor.

O brinquedo ajuda a brincadeira a acontecer. A brincadeira acontece sem os brinquedos, mas eles facilitam a brincadeira. Quando você tem um brinquedo adequado para a idade, baseado nas habilidades de desenvolvimento da criança, eis uma combinação perfeita.


Para as crianças, brincar é a primeira forma de se relacionar com o mundo
iG: Hoje em dia, essa importância da brincadeira é subestimada?

Kathleen Alfano:
Sim. Há uma percepção geral de que brincar é algo que as crianças fazem só para passar o tempo. Mas na verdade, brincar tem um papel fundamental no desenvolvimento infantil. É a maneira da criança sentir-se livre para experimentar, descobrir e explorar. Algumas pré-escolas daqui [dos Estados Unidos] querem tirar o horário livre da grade diária e estamos tentando impedi-los de fazer isso. A criança precisa ter um tempo livre para brincar.

iG: Você acha que brincar é tão importante para a criança quanto comer?

Kathleen Alfano:
Depois da alimentação, do afeto e dos cuidados físicos, vem o brincar. Crianças que são bem-nutridas, amadas e bem cuidadas serão bem sucedidas. Mas, se brincarem, alcançarão ainda mais sucesso.

iG: Nestes 40 anos de experiência, você viu muitas mudanças na maneira que as crianças brincam?

Kathleen Alfano:
Não na forma como elas brincam, mas com o que elas brincam. Crianças gostam de explorar, apertar botões, criar sons. Isso tem sido sempre igual. Mas hoje eles têm objetos diferentes para brincar, e isso faz com que eles pareçam mais espertos aos nossos olhos. Porque eles podem brincar com um iPhone ou um iPad, entre outros gadgets. Eles não têm medo de tecnologia, nem de explorá-la. Mas ainda gostam de brincar das mesmas coisas: de faz de conta, de inventar histórias, brincar com a caixa onde veio o brinquedo...



Brincadeiras para todas as idades e tipos de crianças

iG: E os pais?

Kathleen Alfano: Os pais mudaram. Eles estão mais informados e têm mais expectativas. Hoje há mais fabricantes de brinquedos, mais lojas e eles têm mais decisões a tomar. Mas todos eles têm o mesmo objetivo: fazer o melhor para seus filhos.

iG: Qual o maior erro dos pais quando o assunto é o brincar?

Kathleen Alfano: Um erro muito comum é julgar que brinquedos eletrônicos são ruins. Eletrônicos não “roubam” a imaginação das crianças, que são muito adaptáveis. Se o componente eletrônico for um opcional, de forma que o brinquedo seja funcional mesmo sem pilhas, não há problemas. Quem está no controle é a criança.

iG: E qual o papel dos pais nas brincadeiras dos filhos?

Kathleen Alfano: Os pais devem proporcionar um ambiente seguro, brinquedos adequados para a idade e tempo para a criança brincar. Além disso, devem respeitar a brincadeira: muitas vezes a criança leva um tempo para sair do faz de conta. Por fim, estar presente é importante, mas tão importante quanto é permitir que a criança também aprenda a brincar sozinha.

Leia também:

Brincadeiras tradicionais

Brincadeiras (parte II)

Manobrar o grande transatlântico afetivo das crianças, eis o desafio para pais e educadores

Jogos, brinquedos, brincadeiras

Bebês a bordo das férias

Jogos e infância

Ludopedagogia

Quando brincar precisa ser a prioridade

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Brincando na idade de brincar

Crianças que brincam terão mais sucesso

Bilboquê

Um guia completo para brincar com a gurizada na sala de aula

Inteligência infantil

7 de março de 2012

Do particular para o público - O que esperar?

Do Último Segundo:

Da escola particular à rede pública

Toda mudança, mínima que seja, provoca um certo grau de expectativa, ansiedade e até de angústias. Quando o assunto é mudar a escola dos filhos, a aventura do novo parece ganhar proporções ainda maiores. E se a mudança vem atrelada a uma nova condição econômica, social e cultural, nada mais comum que ver pais completamente desesperados com a perspectiva de ver o filho trocar o uniforme da escola particular pelo de uma escola pública. Para Marilene Proença, professora doutora do Instituto de Psicologia da USP, a postura e a expectativa dos pais são cruciais para a percepção da criança. “Os pais precisam conhecer as instituições e confiar nelas. Isso é o mais importante, o grau de confiabilidade. Se os próprios pais não confiam na escola, isso de algum modo será transmitido à criança ou ao adolescente. E vai gerar insegurança em vez de tranquilidade”, adverte. 


Mas nem sempre os caminhos que levam ao ensino público são tranquilos. As regras para o ingresso nas escolas diferem de cidade para cidade e de estado para estado. “Escolas consideradas melhores em cada região têm demanda maior. Estados e municípios com boas escolas e menor demanda dão escolha às famílias. Há ainda a possibilidade de estudar em uma instituição pela proximidade à casa ou pelo fato de existirem outras crianças da mesma família naquela escola”, explica Maria Ângela Barbato Carneiro, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP.

Como nem sempre há possibilidade de escolha, apenas de cadastro, em muitos casos conseguir uma boa educação na rede pública torna-se um jogo de sorte ou azar. Algumas mães dão sorte. Outras, nem tanto. Conversamos com mães que viveram – ou ainda vivem – os dois lados dessa experiência. Quase todas passaram pelo medo de enfrentar a mudança da escola particular para a rede pública. Elas compartilham aqui seus motivos, suas surpresas e as lições aprendidas com a mudança.

Da escola particular à pública: uma boa surpresa

Cris Guimarães, blogueira, é mãe de Pedro, 11, Daniel, 9, e Luis Felipe, 2 e vive no Rio de Janeiro, RJ. Leia depoimento

"Eu frequentei escola pública até a 4ª série. Meu marido vivenciou essa experiência a vida inteira e mesmo assim eu nunca tinha pensado nessa hipótese para meus próprios filhos. Cheguei a cogitar outras possibilidades, como a educação domiciliar, mas como não é reconhecida no Brasil, meu marido me convenceu de que a rede pública era nossa opção. Não teríamos mais condições financeiras de arcar com os custos da escola privada.
Entrei em pânico. Meus filhos, a princípio, também ficaram apreensivos, pois é uma realidade com a qual não estavam acostumados, além de sempre terem ouvido, em casa e com amigos, coisas negativas sobre a escola pública. Fui sincera com eles. Falei que o motivo era financeiro, mas que daria todo o apoio necessário para garantir uma boa formação. Hoje, acho que não vai ser necessário apoio extra, só o que já era usual, como leituras complementares, passeios culturais e pesquisas na internet, pois me surpreendi bastante com o que vi até agora.

A gente tem em mente que nossos filhos merecem o melhor e a mídia só divulga a parte negativa do que ocorre nas escolas públicas. Poucas são as iniciativas para divulgar os avanços obtidos, as melhorias feitas. Com a minha nova realidade, tive a curiosidade de pesquisar e constatei que o ensino público, nos últimos dez anos, avançou muito em todo o país. No Rio de Janeiro, em especial, há excelentes escolas, muitas com performance alta no ENEM – é um parâmetro discutível, mas não deixa de ser uma referência para comparação – e sem progressão continuada, o que é muito importante.

Feitas minhas escolhas, não tive dificuldade nem para matriculá-los. Fui muito bem recebida pela equipe das duas escolas. Como meus filhos estão em fases diferentes do ensino fundamental, não consegui que ficassem na mesma escola. A infraestrutura é ótima: tem wifi, laboratório de informática, aulas ministradas em netbooks, práticas esportivas, música, aulas de reforço, estudo dirigido.

A escola também oferece um suporte bacana nas refeições – são três por dia – e também fornece o material e uniforme escolar. Ou seja, tirando o luxo ao qual meus filhos estavam acostumados, não acho que sentirão falta de nada. A frase “o aluno faz a escola” tem muito sentido para nós agora. Se eles sempre foram bons alunos até hoje, vão continuar sendo. Eventuais deficiências, a gente discute com a própria escola a melhor forma de suprir. A questão da socialização, de conviver com as diferenças, seja elas de classe social ou de ideologia, também é uma experiência muito rica para eles.

Claro que há desvantagens: falta de organização e muitas informações desencontradas. Uma hora é uma coisa, outra hora é outra, não definem um padrão. Por exemplo, o horário de entrada passado na matrícula foi um, agora é outro. O Riocard (cartão utilizado para pagar o transporte para a escola) veio sem foto, apesar de a foto ter sido tirada na escola. 

Da escola particular à pública: adaptação necessária

Liana Nishitani, fisioterapeuta, é mãe de Yuri, 13, Bianca, 7, e Renan, 5, e vive em São Paulo, SP. Leia depoimento


"Eu fiquei, sim, com o coração na mão quando tive que mudar meus filhos da escola particular para a pública. Nunca havia passado por isso antes, nem como estudante. Mas não houve jeito. Eu saí de um emprego e não conseguiríamos, eu e meu marido, arcar com as despesas de uma escola particular para três filhos. Porque não é só a escola: tem o material, o lanche, o uniforme, passeios... Um pacote de “extras” que não pode ser esquecido. O Yuri, hoje com 13 anos, estuda em escola municipal desde o 5º ano. A Bianca, com 7, está em uma estadual e na rede pública há dois anos. Já o Renan, meu caçula, nunca chegou a estudar numa escola particular.

Por conta da diferença de idade, vivo experiências diversas, que nunca chegaram a ser traumáticas, nem pra mim, nem para os meus filhos. Sei das defasagens, principalmente pedagógicas: tudo é mais lento, não existe muito incentivo à leitura, quase não há lição de casa, as crianças demoram mais a aprender. Mas fico sempre de olho, participo das reuniões, sugiro estímulos. Sempre tive acesso fácil aos professores, diretores. Se quiser marcar uma reunião, não enfrentarei obstáculos. Isso já me conforta, pois sei que tenho voz ativa, serei ouvida.

Minha filha de sete anos já está no 3º ano e só tem português e matemática na grade de disciplinas. Nas escolas particulares, vejo que é bem diferente. Mas, por outro lado, ela foi alfabetizada às pressas e fez grandes progressos neste último ano, pois por conta da idade e com as novas regras para ingresso nos anos, ela teve que pular praticamente um ano, sem saber ler e escrever. E, no final, deu tudo certo. O Renan, meu caçula de cinco anos, só tem como referência educacional a rede pública. E é um menino educado, foi bem cuidado, sempre que houve qualquer incidente na escola eu fui comunicada e nunca sofreu por não ter tido os mesmos privilégios que os outros.



O Yuri, o mais velho, hoje no 9º ano, é o que poderia ter mais dificuldades para se adaptar à escola pública, já que estudou mais tempo no ambiente privado. Mas foi bem tranquilo. Ele sempre foi um bom aluno e continuou sendo. Tento fazer bem minha parte, ficar atenta, ajudar nas pesquisas, nas leituras. Eu me adaptei, meus filhos se adaptaram. Não me incomodam as diferenças de classes sociais, ou que uns alunos vão lá para ser aprovados, enquanto outros não querem saber de nada. Eu vou e estou com a escola pelos meus filhos, pelos alunos que eles são. Hoje, se eu tivesse condições, matricularia meus filhos na rede privada por conta dos estudos mesmo, porque acho os professores e a escola mais comprometida. Mas eu acredito que o choque da mudança da escola pública para a particular seria maior, porque nelas os alunos têm de tudo e do melhor. Com certeza meus filhos sofreriam mais."

Da escola particular à pública: um pesadelo pior do que o imaginado

Odete Santos, engenheira civil, é mãe de Ricardo, 5, e vive em São Paulo, SP. Leia depoimento

"Este ano já seria diferente para o meu filho. Ele acabou o ensino infantil e teria que ingressar no primeiro ano do fundamental. Só não contava com uma mudança tão radical: fiquei desempregada, sem apoio financeiro, e tive então que matriculá-lo numa escola pública. Sempre estudei em escola pública, só a faculdade foi particular. Não me lembro de quando eu era pequena, dos meus primeiros dias de aula na alfabetização, mas assim como eu, sinceramente, espero que meu filho esqueça essa experiência. As coisas que eu vi foram desesperadoras.

Em um primeiro contato, perguntei se poderia ver a escola e a resposta imediata foi negativa, alegando que estavam em reforma. Na segunda vez que estive lá, junto com meu filho, pedi novamente para ver a escola. Novamente me disseram que não, que eu poderia conhecer a escola em janeiro. Não me lembro de, antigamente, a escola pública ser tão desorganizada. Parece que a gente não tem direito nenhum, qualquer forma de se manifestar. As aulas começaram dia 6 de fevereiro e o primeiro dia já foi traumático.

Logo que entramos na escola, era aquela multidão de pais e alunos de todas as idades. Não havia espaço físico para tanta gente. A diretora começou a fazer um discurso que ninguém ouvia. Subi com meu filho para a sala, sentamos, a professora conversou rapidamente. Chegou uma hora que falei que ia embora e ele gritou de desespero. Uma mãe desceu e falou que meu filho estava chorando de soluçar. Subi, conversei com ele e ele ficou bem.

Mas já nesse primeiro dia uma criança invocou com ele, fazia malcriação, jogava o material todo dele no chão. A impressão foi horrível: quando fui buscá-lo, um empurra-empurra na porta, uma voz dizendo “eu vou dar tiro em você”, crianças pequenas junto com as grandes. Ou seja, até alguém chegar, pode acontecer de tudo.

Não existe uma organização antes das aulas começarem. Havia uma pessoa na sala do meu filho, que parecia a professora auxiliar e quando perguntei ela me disse que não sabia o cargo que ocupava na classe, apenas estava lá porque a diretora havia pedido. Deram um crachá para meu filho pendurar no pescoço, coisa que não fazemos nem com um cachorro.

Mandei um caderno no segundo dia. A professora descobriu que ele já estava lendo. Achou bonitinho, falou que leu um livrinho. Mas achei que pedagogicamente estava indo muito devagar. Iam enrolar as crianças até chegar o material do governo. Essa situação estava me angustiando muito e com a ajuda do pai dele, que resolveu arcar com os custos, transferi o Ricardo para uma escola particular.

Não conseguiria engolir aquilo lá por muito tempo. Algumas pessoas falaram para eu conversar mais seriamente com a diretora, pois diziam que era uma escola de referência no bairro. Eu preferi não ter esse desgaste, pois entendi que dificilmente conseguiria unir esforços, inclusive de outros pais, para mudar a situação. Se até então não tinham marcado sequer uma reunião para apresentar a escola, os professores, o planejamento, com certeza seria difícil ter acesso a outras conversas mais privadas.

Todo medo que eu tinha, todos meus receios, se concretizaram de uma maneira ainda pior do que eu esperava. Foi uma experiência péssima e triste, porque no final, é nosso dinheiro que está em jogo e é uma obrigação do estado e da prefeitura oferecer um ensino de qualidade para nossos filhos."


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