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29 de outubro de 2011

O desenho e a alfabetização


A Importância do desenho infantil no processo de alfabetização


Por Alcione Vieira de Paiva e Luana Carolina Rodriguez Cardoso

Este trabalho foi motivado pelo desejo das autoras de identificar as contribuições do desenho infantil no processo na aquisição da escrita por crianças na faixa etária de dois a sete anos. Buscou-se reunir e revisar a bibliografia sobre estudos de alguns teóricos traçando um breve panorama sobre o assunto. Foram objetivos desse trabalho: analisar os estágios de evolução do desenho infantil; revisar bibliografia sobre o tema e compreender como o desenho infantil influencia no processo de alfabetização. Muitas crianças ao chegarem ao 1º ano do ensino fundamental apresentam dificuldades de aprendizagem relacionadas à escrita. É possível que estas crianças não tenham tido oportunidades significativas de interação na educação infantil, fase na qual se desenvolve a função simbólica e consequentemente os sistemas de representação, fato que pode ter prejudicado o desenvolvimento da criança. Em situações como esta, é perceptível a importância do trabalho na educação infantil que priorize e preserve os momentos lúdicos e prazerosos, que certamente contribuirão para o desenvolvimento do desenho infantil.


Ao final do seu primeiro ano de vida, que compreende o estágio sensório-motor, descrito por Piaget (1948), a criança é capaz de manter ritmos regulares e produzir seus primeiros traços gráficos. O desenvolvimento progressivo do desenho implica mudanças significativas que, no início, dizem respeito à passagem dos rabiscos iniciais da garatuja para construções cada vez mais ordenadas, fazendo surgir os primeiros símbolos. De acordo com o mesmo autor, a função semiótica é a capacidade que a criança tem de representar objetos ou situações que estão fora do seu campo visual por meio de imagens mentais, de desenhos, da linguagem. A criança passa a desenvolver essa função no estágio pré-operatório, que compreende faixa etária de dois a sete anos. As crianças no início dessa fase começam a representar na tentativa de interagir com o mundo que a cerca, desenvolvendo a função simbólica, entendida como ato de representação, possibilita à criança, de acordo com Ribeiro (2007) "[...] à tomada de consciência da organização do mundo e o entendimento de fatos passados, presentes e futuros [...]". Sendo assim, entende-se que a representação é requisito básico para as operações mentais.
O que constitui a função semiótica e o que a faz ultrapassar a atividade sensório-motora é a capacidade de representar um objeto ausente, por meio de símbolos ou signos, o que implica poder diferenciar e coordenar os significantes e os significados ao mesmo tempo. (PILLAR, 1996, p.26)
A cada representação que a criança faz, o jogo simbólico e o desenho passam a ser uma necessidade, e é assim que elas vão se inserindo no processo de alfabetização, desde o estágio pré-operatório, onde se inicia o processo de representação, interagindo com a escrita como se a mesma fosse um jogo que contêm regras e, contêm também o imaginário. Dessa forma a escrita deixa de ser uma representação mental e passa a ser uma representação gráfica, carregada de sentidos, assim como o desenho que, primeiro passa pelo plano da representação mental e só depois a criança passa a representá-lo graficamente. Assim o desenho infantil pode ser considerado precursor da escrita, estando diretamente relacionado ao processo de alfabetização.

1. Pressupostos Teóricos


Os primeiros estudos sobre desenho das crianças datam do final do século XIX e estão fundados nas concepções psicológicas e estéticas da época.  São os psicólogos e os artistas que descobrem a originalidade dos desenhos infantis e publicam as primeiras 'notas' e 'observações' sobre o assunto. Como escreveu o famoso pintor Pablo Picasso em relação às suas observações sobre o desenho infantil: Quando criança, eu desenhava como Rafael. À medida que fiquei mais velho, passei a desenhar como criança. De certa forma eles transpuseram para o domínio do grafismo a descoberta fundamental de Jean Jacques Rousseau sobre a maneira própria de ver e de pensar da criança. As concepções relativas a infância modificaram-se progressivamente. A descoberta de leis próprias da psique infantil, a demonstração da originalidade de seu desenvolvimento, levaram a admitir a especificidade desse universo.

Piaget (1948) diz que a representação é gerada pela função semiótica, a qual possibilita à criança reconstruir em pensamento um objeto ausente por meio de um símbolo ou signo. A representação é condição básica para o pensamento existir, uma vez que, sem ela, não há pensamento, só inteligência puramente vivida como no nível sensório-motor. É através do surgimento da função semiótica que a criança consegue evocar e reconstruir em pensamento ações passadas e relacioná-las com as ações atuais. Essa passagem é possível por interações da criança com o ato de desenhar e com desenhos de outras pessoas. Na garatuja, a criança tem como hipótese que o desenho é simplesmente uma ação sobre uma superfície, e ela sente prazer ao constatar os efeitos visuais que essa ação produziu. No decorrer do tempo, as garatujas, que refletiam o prolongamento de movimentos rítmicos de ir e vir transformam-se em formas definidas que apresentam maior ordenação, e podem estar se referindo a objetos naturais, objetos imaginários ou mesmo a outros desenhos. Na evolução da garatuja para o desenho de formas mais estruturadas, a criança desenvolve a intenção de elaborar imagens no fazer artístico. Começando com símbolos muito simples, ela passa a articulá-los no espaço do papel, na areia, na parede ou em qualquer outra superfície. Passa também a constatar a regularidade nos desenhos presentes no meio ambiente e nos trabalhos aos quais ela tem acesso, incorporando esse conhecimento em suas próprias produções. No início, a criança trabalha sobre a hipótese de que o desenho serve para imprimir tudo o que ela sabe sobre o mundo. No decorrer da simbolização, a criança incorpora progressivamente regularidades ou códigos de representação das imagens do entorno, passando a considerar a hipótese de que o desenho serve para imprimir o que se vê. É assim que, por meio do desenho, a criança cria e recria individualmente formas expressivas, integrando percepção, imaginação, reflexão e sensibilidade, que podem então ser apropriadas pelas leituras simbólicas de outras crianças e adultos... Leia mais

26 de fevereiro de 2011

Entenda os desenhos de seus filhos e de seus alunos


Do Guia-me:

Saiba se o seu filho está com algum problema pelo desenho que ele faz


Sabia que os desenhos infantis revelam emoções das crianças? Veja como analisar os desenhos de seu filho

De lápis na mão, uma criança de até 12 anos solta a imaginação e revela, por meio de seus desenhos, o que não diz com palavras mas está em seu coração. Mas como identificar nesses traços sinais de angústia, raiva e tristeza? "Os pais devem pedir para os filhos desenharem, observar, perguntar, falar com eles", orienta a psicóloga Andreia Calçada. E se o pequeno contar algo que incomode você, tente ajudá-lo.

Analise o desenho e as atitudes


O desenho deve ser visto como um detalhe a mais no comportamento da criança, e não isoladamente. E só um profissional pode dar o diagnóstico. "Crianças com problemas sérios, como rejeição da família ou ausência de um dos pais, acabam desenhando a família (tio, avô, cão), menos figuras importantes (os pais) e ela mesma", diz Andreia. Se seu filho já tiver 10 anos, por exemplo, e desenhar pessoas com palitinhos, sem roupa ou partes do corpo, pode não ser bom. Já deveria fazer traços mais bem definidos.


Rabiscos só até os 3 anos!


Se a criança desenha um mundo perfeito (com traços benfeitos de uma casa, da família completa, de gente sorrindo...), é bem provável que ela esteja recebendo todo amor e carinho de que precisa. Agora, repare se o seu filho está desenhando conforme a idade dele. A fase do rabisco abstrato (aquele que não forma nenhuma figura) dura só até 3 anos. As cores vão ter sentido com 6, 7 anos. Preste atenção ainda no ambiente familiar. Qual o clima em casa? Como está a vida dos pais? Ele tem tranquilidade ou vê brigas?



Possíveis significados para desenhos típicos


A criança coloca no papel os seus conteúdos emocionais e o modo como observa o mundo. Entenda o que quer dizer:


Traço - Repare se o traço do seu filho é fraco, quase invisível. Pode ser insegurança. Agora, se ele faz um traço muito forte, pode representar angústia. Como agir: Elogie e estimule seu filho a expressar emoções (alegria, raiva, tristeza...).



Cores - O vermelho em excesso pode ser sinal de que a criança está sofrendo ou vendo muitas cenas de violência. Já o preto pode ser depressão. Como agir: Perceba se ele está contrariado por alguma situação e converse com ele.



Temas frequentes - Há crianças que adoram contos de fadas e animações, mas mesmo assim dá para identificar emoções nesses desenhos, como raiva demais ou revolta. E, se o pequeno só desenha luta, também pode ser por conflitos que vive. Como agir: O ideal é conversar com a professora dele, mas pode ser normal.


Cenas Irreais - Desenhar gente voando, casa sem telhado, gente sem cabeça e outras situações fora da realidade com freqüência é motivo de atenção. E os pequenos que desenham e apagam várias vezes, provavelmente são inseguros e perfeccionistas. Como agir: Não cobre e nem critique a criança.



Membros do corpo - Esquecer pernas e braços merece atenção. Braço é independência e perna, afetividade. Se desenha sempre os órgãos sexuais à mostra, pode ser problema, como abuso. Como agir: Procure ajuda profissional





Como faço para tirar proveito dos desenhos?



Se quer descobrir se o seu filho anda com algum problema emocional, observe seus desenhos. Se algo estiver chamando a sua atenção, pergunte. Se o pequeno não desenhou o pai, por exemplo, pergunte o motivo. Tente entender, até mudar algum comportamento que o entristeça (como cobrança demais, rejeição, críticas). Se não conseguir, procure ajuda psicológica.

26 de novembro de 2010

A linguagem do desenho

Do Clicfilhos:

Desenho, canal de comunicação

Por Lucy Casolary (*)
Quando se observa uma criança desenhando nem sempre se avalia a importância desse ato para o seu desenvolvimento. Parece uma atividade trivial. "Afinal é só um rabisco. Meu filho diz que desenhou uma árvore, mas não parece... a combinação de cores é tão estranha!", dizem certos pais. Não é preciso ser especialista, mas sabendo como o desenho evolui, você terá um canal muito sensível de comunicação com seu filho, o que reforça o seu vínculo com ele. Cultivar mais uma forma de dividir sentimentos, sensações e prazeres, nesses tempos de mudanças velozes, mais do que um acréscimo, é uma necessidade.

Garatuja, garrancho ou rabisco

Quando uma criança, por volta de um ano e meio, pega um lápis na mão, começa a garatujar: este é o nome correto para esta fase do desenho. Os primeiros traços são registros dos movimentos: primeiro sem nenhum controle e atenção aos limites da superfície. O corpo todo participa da atividade. Aos poucos, os movimentos de vaivém passam a ser mais coordenados.  Essa experiência se prolonga e a criança vai repetindo as garatujas longitudinais até perceber que é capaz de dominar seus próprios movimentos. Quando descobre que seus gestos ficam registrados na folha passa a curtir a aparência dessas linhas. Então, ao prazer motor, soma-se o prazer visual.

Sentindo-se segura, começa a tentar movimentos mais amplos, que envolvem o braço inteiro. Aos poucos vai conquistando o círculo, forma fundamental para o desenvolvimento dos símbolos. Ao final dessa fase costumam aparecer as primeiras figuras humanas: cabeças com olhos, às vezes sobrepostas, sem intenção consciente quanto à disposição no papel, escolha das cores ou proporções.  Os pais estarão ajudando o crescimento da criança se tiverem um entendimento do processo, se mostrarem interesse no trabalho, acolhendo, sem interferir, os seus trabalhos. É importante destacar que o contato e a exploração dos elementos plásticos propiciam o desenvolvimento afetivo, pois o desenho é importante para a liberação das emoções. Além de, sem dúvida, trabalhar a coordenação motora e, ao ampliar seu conhecimento do mundo, privilegiar o intelectual.

A conquista da forma

Por volta dos três anos, seu filho começará a dar nomes às figuras, contando "quem" ele quis representar. O grande avanço, nessa fase, é ser capaz de utilizar o círculo para desenhar a cabeça e linhas retas para braços e pernas. O desenho fica, então, parecendo um polvo com seus tentáculos. Mais tarde, essa figura vai ganhar tronco e pescoço, tornando-se, enfim, semelhante à de um ser humano.  Estas ainda são representações sem volume, feitas com linhas finas e palitinhos, abstrações que não se identificam com a realidade, mas com o universo interior da criança. Ela já é capaz de respeitar melhor os limites do papel, porém ainda não tem a preocupação em relacionar as cores com o real. Proporcionar materiais e espaço adequados, escutar suas explicações e observações sobre o que desenhou é a melhor maneira de estimular a produção.

Entre quatro e cinco anos seu filho, mais maduro, vai enriquecendo o círculo cada vez mais. A partir dele constrói outras imagens: animais, carros, aviões, super-heróis. O quadrado vai sendo incorporado ao seu vocabulário plástico e surge a tradicional casinha, característica do desenho infantil, representante do seu universo.  Agora já existe certa preocupação com o realismo: as figuras humanas ganham detalhes, como mãos, pés e cabelos. Ainda assim, certa partes do corpo são esquecidas, ou supervalorizadas, de acordo com a ação que a criança quer representar. Ela já se preocupa em colocar cada coisa em seu lugar, como o sol no alto da folha. As cores são usadas conforme o estado emocional, podendo ser uma pista de como está a criança, no caso de preferência constante de determinados tons.

Uma explosão de imagens

Dos cinco aos seis anos os desenhos costumam ter um roteiro: começo, meio e fim. Pedir a seu filho que conte essas histórias pode dar dicas importantes sobre seu mundo interior: suas fantasias e conflitos. É, também, uma forma de desenvolver a linguagem verbal. Faça perguntas, incentive-o a falar, mas evite críticas ou julgamentos, tanto em relação à forma quanto à história. Nessa fase, os temas escolhidos podem não estar diretamente relacionados com a vida da criança, pois a imaginação delas é predominante. Aparecem, então, árvores, flores, pássaros, mar, que serão utilizados para compor o espaço. Surge a linha de base, representando o chão, apoio importante para outros elementos. A sua presença constante no desenho é um indício de que a criança está pronta para a alfabetização formal.

A figura humana ganha mais detalhes como dentes, dedos, pés, roupas e o pequeno procura relacionar as cores com os respectivos objetos, do tipo céu azul, sol amarelo. Durante toda essa fase há uma busca de conceitos de representação para a figura humana e os outros elementos da realidade; por isso os desenhos ainda não têm esquemas definidos e estão em constante transformação.

Em busca do realismo

Dos sete aos dez anos, a influência da aprendizagem da leitura e da escrita e as exigências da vida escolar tornam-se sensíveis. As crianças estão voltadas para a observação, assim, o mundo exterior vai se sobrepor cada vez mais ao interior e o realismo se torna uma aspiração muito forte.  Elas procuram, ao desenhar, dar a noção de perspectiva, profundidade e distância e passam a utilizar as cores "certas". Também ocorre, nessa fase, a repetição do esquema da figura humana e de outros elementos que compõem o meio - árvores, pássaros, barcos, carros, aviões, etc.

Muitos dos pequenos, não satisfeitos com seus resultados, deixam de desenhar: tornam-se muito sensíveis às críticas e comparam o próprio trabalho com o dos colegas. Portanto muito cuidado com os comentários, pois as observações negativas podem repercutir de maneira desastrosa sobre a expressão plástica de seu filho. É importante incentivá-lo a manusear outros materiais e recursos visuais, tais como colagens com papel rasgado, construções com sucata, montagens com dobraduras, grafitagem, máscaras, marionetes, instalações. Nem todas essas atividades podem ser feitas em casa, mas existem oficinas e ateliês que têm como proposta a realização de trabalhos que envolvam necessidades mais específicas de espaço e materiais.

Apresentar obras de artistas que rompem com as normas convencionais, por exemplo, pode ajudar seu filho a perceber que existem diferentes soluções e formas de expressão. A intenção não é, evidentemente, torná-lo um artista, mas assegurar que o desenho possa continuar sendo uma forma de manifestação pelo máximo tempo possível. Como disse Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena".

(*) Lucy Casolari é pedagoga e educadora

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