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26 de maio de 2012

A busca da relação escolar perfeita

Do Educar para crescer:

O que fazer quando seu filho não gosta do professor

Por Letícia Mori

A criança chega em casa chateada, jogando a mochila no chão e reclamando da escola. Você ouve que o professor não gosta do seu filho ou que seu filho não gosta do professor. A reação natural de qualquer pai é ficar alarmado. Mas é preciso tentar manter a calma. A forma como você lida com a situação pode tornar as coisas muito melhores ou muito piores. Procurar uma resolução pacífica garante o melhor resultado para a vida escolar do seu filho, já que uma boa relação entre o aluno e o professor é um dos fatores que mais influenciam na aprendizagem, segundo a psicóloga e pedagoga Neide Saisi, da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Tanto adultos quanto adolescentes e crianças só aceitam que outra pessoa os ensine quando existe uma relação de confiança. "A pessoa só aprende com aqueles a quem ela delegou o direito de ensinar. E ela só dá esse direito a quem ela confia. É um processo inconsciente", explica a pedagoga.  

E para estabelecer essa confiança, primeiro é preciso criar um laço afetivo. A relação de afeto é fundamental principalmente nos primeiros anos de escola. Se a convivência com o professor é ruim, o aluno começa a rejeitar o processo de aprendizagem e se torna indócil e desinteressado. Por extensão, ele deixa de gostar da escola. "Ela deixa de ser um fato de desenvolvimento e aprendizado e passa ser um local de punição", diz Saisi. Seu filho tem dificuldades nos estudos, notas baixas ou simplesmente tem mostrado o desejo de não ir para a escola? Vale a pena perguntar como anda o relacionamento dele com os professores. Nem sempre crianças e adolescentes deixam claro como é essa relação e os pais acabam não percebendo que esse é um dos fatores do problema. A boa notícia é que na maioria das vezes é possível resolver o conflito por meio do diálogo. 

"Basta os dois lados estarem abertos", diz a psicóloga Sueli Conte, autora do livro "Bastidores de uma Escola" (Editora Gente) e atual diretora do Colégio Renovação, em São Paulo. Segundo ela, o primeiro passo é descobrir qual a origem da desavença, que pode ser resultado tanto do comportamento da criança ou até mesmo do docente. "O professor é um ser humano, ele também erra", explica Neide Saisi. Classes lotadas, estresse, problemas emocionais... Tudo isso pode levar o educador a ter atitudes inadequadas. "Mas normalmente ele é bem intencionado e está disposto a se corrigir se perceber se agiu de forma injusta", afirma Sueli Conte. As especialistas dão quinze dicas para você resolver o problema do seu filho com o professor da melhor forma possível e garantir que a experiência dele na escola seja prazerosa e educativa.

1) Não assuma imediatamente a posição negativa da criança

Todo mundo pode se enganar ao julgar o caráter dos outros. Crianças e adolescentes estão ainda mais sujeitos a se deixarem levar pelas emoções. "Eles podem interpretar a atitude do professor de forma errada", diz a psicóloga Sueli Conte. Antes de achar que o educador é um carrasco, ao menos leve em conta essa possibilidade. Acalme seu filho e peça para ele explicar melhor a situação.

2) Ouça bem e fique atento aos detalhes

Se seu filho fizer afirmações genéricas como "minha professora é má", tente entender o que exatamente ele quer dizer com isso. Descubra o maior número de detalhes sobre a situação que o levou a pensar desse jeito. Será que a professora o humilhou na frente da classe ou apenas exigiu que ele fizesse o exercício? Segundo a psicóloga Sueli Conte, autora do livro "Bastidores de uma escola", é importante perguntar de maneira casual para que a criança não seja levada a exagerar a situação. Assim você pode julgar com clareza se a atitude foi realmente inadequada ou se a criança interpretou de maneira incorreta uma exigência razoável.

3) Encontre a orígem do problema

Muitas vezes o aluno cria rancor do professor simplesmente porque não consegue entender o que ele está explicando. "Para existir afeto entre os dois, o mestre precisa respeitar o nível de desenvolvimento do aluno e sua personalidade", explica a psicopedagoga Neide Saisi, da PUC-SP. Alunos tímidos, por exemplo, podem acabar recebendo menos atenção e sentirem-se rejeitados. Tente entender qual a origem do conflito para estar preparado quando for conversar com o professor e com a escola.

4) Confirme se o desgosto é com o educador ou com a matéria

Se o aluno tem alguma defasagem de ensino ou dificuldade natural com uma disciplina específica, pode transferir o sentimento negativo para quem ministra a matéria. "Se não gosta do assunto, a criança ou adolescente também tende a ser mais indisciplinado, e consequentemente, mais repreendido", diz a psicopedagoga Neide Saisi, da PUC-SP. Nesse caso, explique a importância de aprender aquela disciplina, tente ajudá-lo com as tarefas e converse com a escola para que ele receba reforço. Aulas particulares também podem ajudar.

5) Avalie o comportamento de seu filho

Pode ser que ele não seja indisciplinado em casa, mas tenda a ultrapassar os limites na escola. Nem sempre as crianças se comportam da mesma forma nos dois ambientes. "Se a criança tem atitudes rebeldes e desafiadoras na sala de aula, a família tem de tentar resolver essa questão em casa", diz a psicóloga Sueli Conte, autora do livro "Bastidores de uma Escola" (Editora Gente). Mas não pergunte se ele fez algo de errado, isso pode parecer uma acusação. Peça a ele para pensar em quais atitudes poderiam estar deixando o professor bravo e ajude-o modificar esse comportamento.

6) Procure causas externas

Desavenças familiares, brigas com colegas e até problemas de saúde podem levar as crianças e se tornarem agressivas na escola, segundo a psicopedagoga Neide Saisi, da PUC-SP. "É importante resolver fora da sala de aula tudo o que possa levar o aluno a ‘descontar’ suas frustrações nesse ambiente e acabar entrando em conflito com o professor", diz ela.

7) Não faça acusações

A relação com a criança é um problema a ser resolvido, não uma briga a ser ganha. Deixe claro para o professor que não está fazendo acusações, apenas mostrando como seu filho se sente e tentando entender o porquê. "A conversa com o professor pode ser muito rica se os pais estiverem abertos ao diálogo", afirma Sueli Conte, psicóloga e diretora do Colégio Renovação, em SP. "Mas se eles chegarem brigando, exaltados, podem piorar uma situação que seria simples de resolver".

8) Esteja disposto a ouvir mais do que falar

A ideia da conversa é compreender o que está fazendo seu filho sentir que o professor não gosta dele e vice-versa. "Muitas vezes o professor nem sabe que existe um problema", afirma a psicopedagoga Neide Saisi, da PUC-SP. Explique, diga que está preocupado com a situação e peça para o docente contar seu ponto de vista. Assim vocês podem pensar em conjunto qual a melhor solução para todos.

9) Compartilhe informações que ajude o professor a entender seu filho

Se a criança acabou de perder alguém da família ou teve uma experiência traumática na escola, é natural que deixe de fazer as tarefas, fique triste etc. Explique que não quer justificar a falta de disciplina. Segundo a psicopedagoga Neide Saisi, da PUC-SP, passar para o professor informações sobre o passado do seu filho ajuda o educador a entender a atitude do aluno em relação ao aprendizado e adaptar a forma como se relaciona com ele.

10) Participe ativamente da educação de seu filho

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo aconselha os pais a participar de reuniões de pais e mestres e outras solicitadas pela escola, acompanhar as provas e tarefas dos filhos e verificar o desempenho da criança através dos seus cadernos. "A presença dos pais na educação escolar de seus filhos constitui requisito fundamental para a aprendizagem do aluno", afirma a secretaria em nota. Essa é também a opinião da psicóloga e diretora do Colégio Renovação, Sueli Conte. "Entrar sempre em contato com a escola, não apenas quando há um problema, ajuda a criar confiança tanto dos pais em relação à escola quanto da escola em relação aos pais. Assim fica mais fácil resolver problemas quando eles aparecem", diz ela.

11) Não critique o professor na frente do aluno

Por mais crítico que o problema pareça, não fale mal do docente para a criança ou na frente dela. É o que aconselha a psicóloga Sueli Conte, autora do livro "Bastidores de uma Escola" (Editora Gente). Segundo ela, isso só vai aumentar a raiva do seu filho, torná-lo menos aberto a trabalhar para que o relacionamento melhore e reforçar a ideia de que o professor é um "vilão". Isso pode se estender para uma visão negativa de professores em geral e comprometer sua aprendizagem para o resto da vida escolar.

12) Não prometa uma solução instantânea

Diga para seu filho que se importa com o que está acontecendo e vai fazer de tudo para que a situação melhore. Mas explique que você não vai simplesmente ir até a escola e acabar com o problema. "O aluno não pode achar que é só o pai aparecer, brigar com a escola e vai ficar tudo bem. Nessas situações, é preciso a colaboração de todos: da família, da escola, do professor e da criança também", diz Sueli Conte. Por isso os pais devem mostrar que é preciso trabalhar em conjunto e que pode levar algum tempo até que as coisas se acertem.

13) Explique para seu filho a importância de aprender a matéria mesmo não gostando do professor

Ajude a criança ou o adolescente a entender que todas as disciplinas escolares são importantes para o seu desenvolvimento. Elas vão ser úteis em algum momento e é essencial que ele aprenda. Durante a vida vai haver diversas situações nas quais ele terá que trabalhar com alguém por quem não sente simpatia. "Às vezes o problema do aluno pelo professor é só uma questão de personalidade, de empatia. Principalmente entre alunos mais velhos", explica Sueli Conte, psicóloga e autora do livro "Bastidores de uma Escola" (Editora Gente). Se o aluno não for muito pequeno e se o conflito não for grave, o ano em que estudar com aquele professor pode ser uma oportunidade para seu filho aprender a lidar com diferenças de personalidade.

14) Forme um grupo com outros pais

Procure os pais de outros alunos para verificar se o problema se repete com eles. "Se várias pessoas estão reclamando do mesmo professor, então não é um problema pontual", afirma a psicopedagoga Neide Saisi. Se vários pais já tentaram resolver a situação sem sucesso, pode ser o caso de vocês formarem um grupo e entrarem em contato com a escola em conjunto.

15) Procure a escola e outras instâncias de ensino

Se você constatar que o professor realmente está agindo de maneira inadequada, procure o coordenador pedagógico ou o diretor da escola. No Estado de São Paulo, a rede pública também conta com o Professor-Mediador Escolar e Comunitário que auxilia nesse tipo de caso. "Às vezes o problema é realmente o professor. Acontece. Nesse caso a escola tem que tomar providências", afirma a psicopedagoga Neide Saisi. Se mesmo assim o problema persistir, e você não puder ou não conseguir mudar se filho de escola, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo informa que é possível pedir a intervenção de instâncias superiores de ensino por meio de um processo formal. Procure a Secretaria de Educação do seu estado para saber quais são os procedimentos na sua região do país.

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